"Mister Place to Safe
was afraid to fly"
- O de sempre, algumas hierarquias e outras coisas mundanas -
Algumas pessoas dizem que o maior problema quando um ente querido morre e, antes, em vida, pede para ser cremado e ter suas cinzas jogadas ao mar ou em qualquer outro local, é a falta de um lugar especifico para se ir no dia de Finados.
Os túmulos servem para isso. Para que as pessoas mortas sejam sepultadas e para que aquelas que continuam vivas possam ir até eles. (Até um dia serem sepultadas também.) Uma visão fria da coisa resulta na conclusão de que a maior função desses “cofres de concreto” nada mais é a de suprir uma necessidade do psicológico humano.
No último dia 02 de novembro, o Cemitério São João Batista, em Botafogo, se encontrava repleto desse tipo de gente, com esse tipo de atitude. Eram homens e mulheres de todas as idades, que se dirigiam às sepulturas e nelas depositavam flores e rezas. Alguns choravam. Uns mais, outros menos. Outros não deixavam nada, não choravam também. Era como se estivessem apenas cumprindo com o dever da visita à alguém que não pode nunca mais sair de casa.
Não cabe julgar aqui se estão certos ou errados, nem tampouco discutir o tamanho da dor de cada um, mas seus gestos eram consideravelmente curiosos.
Assim que você entra neste cemitério, através do portão principal, existe uma espécie de rua que vai dar numa igrejinha, que fica por sua vez no alto de um morro. Ao dobrar a primeira rua à direita da cruz quase gigante fincada no chão e seguir um pouco mais adiante, encontramos por lá, neste dia, alguns fãs da cantora Clara Nunes. Além das flores, eles rezaram, cantaram, dançaram, bateram palmas, discursaram e sob o carneiro colocaram fotos, textos e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Estavam num grupo com cerca de 15 pessoas, todas vindas de Sorocaba, interior de São Paulo. Uma fã travestida de Clara Nunes também apareceu e, junto com o grupo, cumpriu todo ritual.
À esquerda da mesma cruz quase gigante está sepultada Carmen Miranda, cantora e atriz luso-brasileira. Desde o início do dia, Bob Lester, o único integrante do Bando da Lua que a acompanhava nos shows, fazia sua homenagem à “Pequena Notável”. Todo ano, na mesma data, ele sempre vai até o São João Batista e, sob o túmulo de Carmen espalha fotos da época em que ela e os amigos músicos estavam no auge da carreira. Bob foi muito solícito quando perguntamos se ele aceitaria nos conceder uma entrevista. Um jornalista, de uma renomada empresa de comunicação, aproveitou a brecha e também entrevistou Lester, cujo nome verdadeiro é Edgar. O mais interessante foi ver a reação das pessoas que passavam pelo local. Antes, sem câmeras e repórter, Bob Lester apenas era um velhinho debaixo de um sol muito quente, vestido de preto e usando um boné na cabeça, com uma pasta preta da qual retirava as tais fotos de Carmen e as organizava em cima da pedra de granito. Depois, ele se transformou no “entrevistado”, que além de responder às nossas perguntas e às do jornalista, passou a ser questionado pela pequena multidão que foi se formando em torno de nós.
Ainda à direita, encontramos um dos túmulos mais famosos deste cemitério. Na pedra está escrito: O tempo não pára. Dependurado numa espécie de arco estava um coração feito de rosas vermelhas. Pouquíssimas pessoas paravam para olhar. Mas quem parou fez algumas orações e também tirou fotografias. Agora, pergunto eu: qual a graça em ser fotografado ao lado do túmulo de alguém? Quem sabe o Cazuza, se estivesse vivo, não me daria uma boa resposta...
Andamos muito. Vimos muita coisa. Acredito também que devemos ter deixado de enxergar bastante. Tem lugares em que a minha sensibilidade não consegue chegar. Tem horas que falta sensibilidade para ver. Talvez isso seja natural.
Meninos negros passavam por nós vendendo água para as flores. Muitas crianças e adultos se revezavam nesta função. Do lado esquerdo, mais distante da rua principal, existe uma espécie de poço. Lá, você desce alguns degraus e consegue encher um balde com muita facilidade. A água para molhar as flores era vendida a um real cada dois litros dela. Quem não tem dinheiro durante a vida a vendia, quem tem dinheiro e alguns mortos a comprava.
Enquanto duas senhoras rezavam juntamente com duas freiras diante de uma sepultura, um garoto aparentando ter uns 12 anos de idade limpava o lugar. O menino se ajoelhou em cima do túmulo, começou a raspar o limo verde, enquanto a reza continuava. Não sei se isso para mim significa uma absurda inversão de valores, mas posso garantir que me soa estranho.
Sob a sepultura do “maestro soberano”, apenas algumas flores amarelas e pouquíssimas rosas vermelhas, coisa de 4 ou 5. Por sua vez, por cima da sepultura do ex-ministro da Educação, Gustavo Capanema, havia apenas uma garrafa plástica de leite Parmalat Premiun vazia.
Encontramos muitas urnas tumulares de famosos, porém os anônimos também representavam suas mortes sem deixar a desejar. Estátuas de gregos, de anjos, de pessoas. A menina e o pandeiro no túmulo de Ary Barroso. Quem será a anônima menina? As lápides com frases de conforto, as inscrições que traziam a mesma data de morte para uma família inteira, que nos remetia a imaginar o que teria causado isso.
Mas apesar da aparente morbidez, que pra falar a verdade nem chegou a se manifestar de fato, descobri que eu posso estar certa. Acredito na filosofia do If tomorrow never comes faz tempo. Se você gosta de alguém, seja esse alguém o que for, é importante que você deixe claro. Às vezes a coragem falta, como vem me faltando, porém é fundamental saber que o bacana de tudo está naquilo que você pode compartilhar, nos abraços que você pode dar, nas pessoas que você vai descobrindo, nas dificuldades e nas risadas que acontecem junto... Depois, quando o amanhã não vir mesmo, o que vai te restar é um infinito monólogo, algumas flores que precisam de água do poço e um punhado de orações por fazer.
Os túmulos servem para isso. Para que as pessoas mortas sejam sepultadas e para que aquelas que continuam vivas possam ir até eles. (Até um dia serem sepultadas também.) Uma visão fria da coisa resulta na conclusão de que a maior função desses “cofres de concreto” nada mais é a de suprir uma necessidade do psicológico humano.
No último dia 02 de novembro, o Cemitério São João Batista, em Botafogo, se encontrava repleto desse tipo de gente, com esse tipo de atitude. Eram homens e mulheres de todas as idades, que se dirigiam às sepulturas e nelas depositavam flores e rezas. Alguns choravam. Uns mais, outros menos. Outros não deixavam nada, não choravam também. Era como se estivessem apenas cumprindo com o dever da visita à alguém que não pode nunca mais sair de casa.
Não cabe julgar aqui se estão certos ou errados, nem tampouco discutir o tamanho da dor de cada um, mas seus gestos eram consideravelmente curiosos.
Assim que você entra neste cemitério, através do portão principal, existe uma espécie de rua que vai dar numa igrejinha, que fica por sua vez no alto de um morro. Ao dobrar a primeira rua à direita da cruz quase gigante fincada no chão e seguir um pouco mais adiante, encontramos por lá, neste dia, alguns fãs da cantora Clara Nunes. Além das flores, eles rezaram, cantaram, dançaram, bateram palmas, discursaram e sob o carneiro colocaram fotos, textos e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Estavam num grupo com cerca de 15 pessoas, todas vindas de Sorocaba, interior de São Paulo. Uma fã travestida de Clara Nunes também apareceu e, junto com o grupo, cumpriu todo ritual.
À esquerda da mesma cruz quase gigante está sepultada Carmen Miranda, cantora e atriz luso-brasileira. Desde o início do dia, Bob Lester, o único integrante do Bando da Lua que a acompanhava nos shows, fazia sua homenagem à “Pequena Notável”. Todo ano, na mesma data, ele sempre vai até o São João Batista e, sob o túmulo de Carmen espalha fotos da época em que ela e os amigos músicos estavam no auge da carreira. Bob foi muito solícito quando perguntamos se ele aceitaria nos conceder uma entrevista. Um jornalista, de uma renomada empresa de comunicação, aproveitou a brecha e também entrevistou Lester, cujo nome verdadeiro é Edgar. O mais interessante foi ver a reação das pessoas que passavam pelo local. Antes, sem câmeras e repórter, Bob Lester apenas era um velhinho debaixo de um sol muito quente, vestido de preto e usando um boné na cabeça, com uma pasta preta da qual retirava as tais fotos de Carmen e as organizava em cima da pedra de granito. Depois, ele se transformou no “entrevistado”, que além de responder às nossas perguntas e às do jornalista, passou a ser questionado pela pequena multidão que foi se formando em torno de nós.
Ainda à direita, encontramos um dos túmulos mais famosos deste cemitério. Na pedra está escrito: O tempo não pára. Dependurado numa espécie de arco estava um coração feito de rosas vermelhas. Pouquíssimas pessoas paravam para olhar. Mas quem parou fez algumas orações e também tirou fotografias. Agora, pergunto eu: qual a graça em ser fotografado ao lado do túmulo de alguém? Quem sabe o Cazuza, se estivesse vivo, não me daria uma boa resposta...
Andamos muito. Vimos muita coisa. Acredito também que devemos ter deixado de enxergar bastante. Tem lugares em que a minha sensibilidade não consegue chegar. Tem horas que falta sensibilidade para ver. Talvez isso seja natural.
Meninos negros passavam por nós vendendo água para as flores. Muitas crianças e adultos se revezavam nesta função. Do lado esquerdo, mais distante da rua principal, existe uma espécie de poço. Lá, você desce alguns degraus e consegue encher um balde com muita facilidade. A água para molhar as flores era vendida a um real cada dois litros dela. Quem não tem dinheiro durante a vida a vendia, quem tem dinheiro e alguns mortos a comprava.
Enquanto duas senhoras rezavam juntamente com duas freiras diante de uma sepultura, um garoto aparentando ter uns 12 anos de idade limpava o lugar. O menino se ajoelhou em cima do túmulo, começou a raspar o limo verde, enquanto a reza continuava. Não sei se isso para mim significa uma absurda inversão de valores, mas posso garantir que me soa estranho.
Sob a sepultura do “maestro soberano”, apenas algumas flores amarelas e pouquíssimas rosas vermelhas, coisa de 4 ou 5. Por sua vez, por cima da sepultura do ex-ministro da Educação, Gustavo Capanema, havia apenas uma garrafa plástica de leite Parmalat Premiun vazia.
Encontramos muitas urnas tumulares de famosos, porém os anônimos também representavam suas mortes sem deixar a desejar. Estátuas de gregos, de anjos, de pessoas. A menina e o pandeiro no túmulo de Ary Barroso. Quem será a anônima menina? As lápides com frases de conforto, as inscrições que traziam a mesma data de morte para uma família inteira, que nos remetia a imaginar o que teria causado isso.
Mas apesar da aparente morbidez, que pra falar a verdade nem chegou a se manifestar de fato, descobri que eu posso estar certa. Acredito na filosofia do If tomorrow never comes faz tempo. Se você gosta de alguém, seja esse alguém o que for, é importante que você deixe claro. Às vezes a coragem falta, como vem me faltando, porém é fundamental saber que o bacana de tudo está naquilo que você pode compartilhar, nos abraços que você pode dar, nas pessoas que você vai descobrindo, nas dificuldades e nas risadas que acontecem junto... Depois, quando o amanhã não vir mesmo, o que vai te restar é um infinito monólogo, algumas flores que precisam de água do poço e um punhado de orações por fazer.
Por isso, exercitem o barato da vida e não tenham medo de voar!
