quinta-feira, dezembro 14, 2006

Mais vale
um pássaro
na mão do que
dois voando?





Nesta quarta-feira, a senadora Heloísa Helena fez um discurso que comoveu alguns membros do Senado. Foi o momento de dizer adeus. Sai HH e entra Fernando Collor. Parece ironia do destino. O presidente do impeachment de 1993 irá ocupar o lugar da mulher que se rebelou contra a corrupção do Partido dos Trabalhadores (PT).

HH preferiu ficar de fora da sujeirada que corria (e corre) solta no mais alto escalão do governo. Na luta por justiça chegou a se candidatar ao cargo de Presidente da República, porém nem chegou a participar do 2º turno das eleições.

Mas a pergunta-título deste texto quer saber: - Será mesmo que a velha máxima de ter um único pássaro na mão do que ficar sem nenhum é mesmo a melhor opção em todos os casos? Ao invéns de se recandidatar ao Senado, HH preferiu subir alguns degraus. Não deu certo. Em poucos dias ela voltará a lecionar na Faculdade Federal de Alagoas, com uma carga de trabalho de 20 horas semanais, pois a fundadora do PSOL pretende continuar em atividade no que diz respeito aos assuntos da vida pública.
Bom, pelo menos a gente sabe o fim dessa história.
Logo, já que começamos com uma pergunta, eis a afirmação:
QUEM NÃO ARRISCA, NÃO PETISCA!

terça-feira, dezembro 12, 2006

Síndrome de Down

Inclusão com responsabilidade



“A reabilitação em si é uma coisa muito mais responsável.
Deve-se trabalhar o potencial possível do indivíduo”.

Sandra Lobo
Pediatra e coordenadora do Programa
de Reabilitação da Secretaria municipal de Saúde





Geórgia Detogne


A Síndrome de Down é caracterizada por um atraso no desenvolvimento das funções motoras do corpo e das funções mentais. Um bebê portador desta síndrome apresenta nos primeiros dias de vida um quadro de hipotonia, que é um tipo de fraqueza muscular. Essa fraqueza faz com que a criança tenha dificuldades para se alimentar, pois engolir, sugar, sustentar a cabeça e os membros são práticas que exigem um esforço bem maior em comparação àquele que é feito pela criança não-portadora.

A principal causa deste tipo de síndrome é o excesso do material genético proveniente do cromossomo 21. Seus portadores apresentam três cromossomo 21, ao invés de dois, por isto a Síndrome de Down, que teve a sua primeira descrição clínica publicada em 1866 por Langdon Down, também é conhecida como Trissomia do 21. Trata-se de um acidente genético que foge ao controle da medicina e que ainda não tem cura.

Para que o recém-nascido portador da síndrome possa ter sua qualidade vida aumentada, quinze dias após o nascimento deve-se iniciar a aplicação dos programas de estimulação precoce que propiciem o desenvolvimento motor e intelectual. Esses programas contribuirão na diminuição gradativa da hipotonia do recém-nascido.

Mas antes mesmo do nascimento os pais do bebê têm a possibilidade de saber se o feto nascerá ou não sendo um portador de Down. O diagnóstico é feito por meio do cariótipo, que é a representação do conjunto de cromossomos de uma célula. Depois da décima primeira semana de vida intra-uterina o exame pode ser feito com a utilização de tecido fetal. Após o parto, o cariótipo passa a ser realizado a partir dos exames dos leucócitos obtidos de uma pequena amostra de sangue. Por este e por outros motivos, é importante que todos os recém-nascidos façam o Teste do Pezinho.

De acordo com a pediatra e coordenadora do Programa de Reabilitação da Secretaria municipal de Saúde do Rio de Janeiro, dra. Sandra Lobo, o cariótipo serve apenas para preparar os pais para receberem uma criança que necessitará de
cuidados especiais durante toda a vida. Em se tratando da gestação, uma mulher com mais de 35 anos tem uma maior probabilidade de ter filhos portadores da Síndrome de Down. Nessa idade o risco é de 1 para 370, enquanto aos 20 ele diminui de 1 para 1600. Cabe frisar que esta é uma síndrome que ocorre em todas as raças e em ambos os sexos. Sendo que a taxa de abortos espontâneos varia de 65% a 80%.

Uma pessoa portadora da Síndrome de Down tem como características físicas um perfil achatado, orelhas pequenas, aumento da distância entre o primeiro e segundo artelho, olhos com as fendas das pálpebras oblíquas, língua protusa (para fora da boca), encurvamento dos quintos dígitos (dedos) e prega única nas palmas das mãos. Foi o formato dos olhos o responsável pelo surgimento de um outro nome atribuído à Síndrome de Down. Antes ela era também conhecida por “mongolismo”, devido às pregas nos cantos dos olhos que lembram pessoas da raça mongólica (amarela). Este termo caiu em desuso com o passar do tempo.

Para a especialista todo o trabalho desenvolvido com o portador de deficiência deve estar baseado no potencial possível de cada pessoa. Ainda na década de 1990, era comum encontrar portadores da Síndrome de Down misturados aos pacientes portadores de doenças mentais. A história da reabilitação no Brasil evoluiu bastante ao longo dos séculos. Na Antiguidade as crianças com qualquer espécie de deficiência eram abandonadas pelas famílias, com o passar dos anos a questão religiosa fez com que estas fossem protegidas, porém no fim do século XIX os hospitais psiquiátricos passaram a ser as principais instituições de abrigo. Esses modelos de internação serviram para afastar os portadores de Down do convívio com a sociedade.

Tinha um conceito de abandono no início, depois tinha um conceito de castigo imposto pela igreja que também segregava e, finalmente, começa o conceito de que o portador tem que ficar separado num lugar para depois voltar para a família – afirma a médica.

Por volta de 1993, um grupo de profissionais da rede municipal de saúde liderado pela dra Sandra Lobo iniciou um trabalho de desospitalização. Este trabalho se baseava em fazer com que os pacientes retornassem
às suas casas e, conseqüentemente, ao convívio familiar. Ele somente seria atendido na unidade de saúde para consultas e sessões de tratamento.

O número de pessoas com Down atendidas pelas unidades do município do Rio de Janeiro é considerado menor em relação ao de portadores atendidos pela APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). Mesmo assim, ambos desenvolvem trabalhos de máxima importância para a saúde e a qualidade de vida dos portadores.

As crianças com a Sindrome de Down sempre pertenceram muito à APAE. Nas nossas instituições você vê a criança portadora quando nasce em consultas no cardiologista, cuidando dos problemas respiratórios, mas no desenvolvimento não. Porque o Down tem um potencial elevado, apesar da deficiência mental – explica Lobo.

Desde 1954 as APAEs já são uma realidade no país. A primeira delas foi fundada no Rio de Janeiro e, atualmente, todos os estados do território nacional possuem sua própria Federação
* (das APAEs). A instituição tem como objetivo promover o desenvolvimento do portador da Síndrome de Down nos aspectos físico, mental, afetivo e social.

O governo também busca reforçar o desenvolvimento e a inclusão social. Para isso são desenvolvidos projetos como o “Programa Educação Inclusiva” e o “Educar na Diversidade”, criados pelo Ministério da Educação. Ambos tratam a educação inclusiva como sendo uma ação mais que necessária e, recentemente, serviram de tema de discussão no Fórum Internacional (sobre) Síndrome de Down, que foi realizado entre os dias 18 e 21 de outubro, em Campinas (SP).

Para a dra. Sandra a questão da inclusão social deve ser tratada com muita seriedade, pois não basta apenas fazer com que o portador de Down conviva com as demais crianças numa sala de aula, ou que todas as escolas estejam dispostas a matriculá-lo sem ter as mínimas condições para isso.

Há poucos dias acompanhamos a peregrinação da personagem Helena, interpretada pela atriz Regina Duarte, na novela “Páginas da Vida”, em busca de uma escola que aceitasse sua filha adotiva portadora da Síndrome de Down. Expor esse tipo de situação na mídia é algo bastante favorável, porque leva as pessoas a refletirem sobre o assunto e até mesmo faz com que o preconceito seja reduzido. Porém, alguns outros pontos devem ser lembrados. A inclusão antes de
mais nada deve ser responsável.

Se a criança portadora da síndrome de Down for muito diferente, se ela não puder acompanhar essa turma, ela vai ficar muito mais excluída. Eu sou a favor e luto pela inclusão o tempo todo, mas por uma inclusão que significa pertencimento. Eu luto por uma inclusão responsável. A escola tem que ser inclusiva, mas repito, essa inclusão tem que ser responsável. A forma como trabalham na novela me incomoda um pouco, não pela inclusão, pois eu acho que ela tem que ser divulgada. Porém, deve ser bem explicada – conclui a médica especialista.

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* A Federação, a exemplo de uma APAE, se caracteriza por ser uma sociedade civil, filantrópica, de caráter cultural, assistencial e educacional com duração indeterminada, congregando como filiadas as APAEs e outras entidades congêneres, tendo sede e fórum em Brasília –DF.

FOTOS: Richard Bailey.

A exibição Shifting Perspectives (Mudando Perspectivas), em cartaz em Londres, foi organizada pelo fotógrafo Richard Bailey. Bailey tem uma filha com Síndrome de Down e resolveu preparar fotos de crianças com o problema com o objetivo de amenizar o estigma que envolve a doença. Na primeira foto, 365 crianças foram fotografadas para "mostrar que cada uma é diferente".

domingo, dezembro 03, 2006

Um ano depois...
Em novembro de 2005, após uma breve pesquisa sobre o jornalista Samuel Wainer, escrevi o texto que segue abaixo. Achei que seria interessante postá-lo novamente, pois o classifico como sendo uma das histórias mais curiosas que já tomei conhecimento.
Para aqueles que também quiserem conferir a entrevista com a jornalista Joëlle Rouchou, basta acessar a pasta deste blog referente ao mês de março. Joëlle me contou um pouco a respeito do livro que escreveu sobre Wainer e algumas outras coisas.
Então, desde já, gostaria de dizer que mais uma vez será um prazer compartilhar com todos o material coletado para a realização deste trabalho.
Um abraço,




50 anos da absolvição de Samuel Wainer
por Geórgia Detogne


" O jornalista não é um criador de fatos, ele é um transmissor
e precisa saber ver. E saber ver é só vivendo."

S.Wainer


No dia 23 de novembro de 1955, o jornalista Samuel Wainer vivia o que para ele foi um dos dias mais emocionantes de sua vida. Em outubro, fora condenado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro a um ano de prisão pelo crime de falsidade ideológica. No mês seguinte, Wainer estava livre e deixava o único quarto para presos especiais que existia no Hospital da Polícia Militar, na rua Frei Caneca.

A morte de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, serviu para que seus inimigos finalmente pudessem se concentrar em uma única missão: destruir Samuel Wainer. Era um ótimo momento para acabar com o Última Hora, jornal criado por ele, que se diferenciava dos demais periódicos por ser o único a apoiar o governo da época e, que além de se dirigir àqueles que faziam parte da elite, também estava intensamente voltado para as camadas populares. Por meio dele, os leitores acompanhavam o que acontecia na Era Vargas de 1951 a 1954. No Palácio do Catete, o jornalista Luis Costa estava atento a tudo que se passava e as informações colhidas eram publicadas na coluna intitulada “O Dia do Presidente”, que existiu na página 3, desde o surgimento do jornal até o suicídio de Getúlio.

Assis Chateaubriand (dono dos Diários Associados e ex-patrão de Samuel Wainer) e Carlos Lacerda (dono da Tribuna da Imprensa) foram os principais acusadores na Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada inicialmente para investigar a origem do dinheiro utilizado na montagem do Última Hora e que teve na questão da nacionalidade de Wainer um de seus pontos mais importantes. Chatô era o patrão abandonado pelo grande repórter que deu aos seus dois jornais, Diário da Noite e O Jornal, uma vendagem de 180.000 exemplares cada, com a matéria que anunciava o retorno de Vargas ao poder.

Tudo começou quando Samuel Wainer fora mandado ao Rio Grande do Sul, em fevereiro de 1950, para fazer uma reportagem sobre a plantação de trigo na região, quando viu que sobrevoava a fazenda onde se encontrava Getúlio Vargas, imediatamente deu ordens ao piloto para aterrissar. O resultado de tal ousadia foi a entrevista que mais tarde ficaria famosa por noticiar em primeira mão o retorno do ex- ditador, que desta vez estava disposto a voltar ao comando do país como líder das massas. Neste instante começava a ser escrita a história sobre um jornalista que sonhava em ser dono de jornal e de um presidente do Brasil que o ajudou a realizar esse sonho.

Invejas, vaidades, ciúmes, ódios e outros tipos de sentimentos similares também começavam a aparecer. Lacerda era um ex-amigo que tinha se rebelado, que deixava dona Dora, mãe de Samuel, apavorada e aos prantos por não entender o que levava o “rapaz bonzinho” que freqüentava a casa dos Wainer, a odiar tanto seu filho. Além dos desafetos que nutriam pelo fundador do Última Hora, Chateaubriand e Carlos Lacerda também eram ferozes opositores de Vargas.

Na autobiografia, que leva o título de “Minha Razão de Viver – memórias de um repórter”, publicada pela primeira vez em 1987, Wainer se descreve como sendo “um judeu do Bom Retiro, sentado à mesa com os donos de jornais”. Esses mesmos donos antigetulistas desejavam vê-lo longe das salas de reunião, dos outros ambientes sociais e, principalmente, fora dos meios de comunicação. O plano era destruir o Última Hora sob o pretexto de que este era uma ameaça para imprensa brasileira, logo, destruir seu proprietário, porque Samuel e seu jornal eram um só. A segunda tarefa era a de aniquilar Vargas.


Entretanto, por ironia do destino, o presidente tratou de dar fim à sua vida. E o velho clichê foi consumado: o feitiço virou-se contra o feiticeiro. A idéia de uma CPI partiu do próprio jornalista e teve o apoio de Getúlio. Ambos acreditavam que por meio dessa comissão a trajetória do Última Hora poderia ser investigada, dando fim às denúncias de favorecimento ilícito advindos do Banco do Brasil.

Wainer contava com os votos da maioria governista do Legislativo para derrotar aqueles que representavam a União Democrática Nacional (UDN), ligados a Lacerda. Porém esta maioria o acabou traindo e demonstrando qual era o grau de prestígio que Vargas tinha naquele momento. Além do mais, o jornalista dispensou advogados na primeira fase das investigações e como ele mesmo conta, talvez se não tivesse feito isso “escaparia dos dissabores provocados por escorregões decorrentes da falta de experiência jurídica”. Em outra etapa, no ano de 1955, evitou o erro que cometera no passado e foi defendido por um grupo de profissionais devidamente habilitados, dentre eles estava o jurista Evandro Lins e Silva (o mesmo que defendeu mais de 2.000 presos políticos no Estado Novo e redigiu o pedido de impeachment de Fernando Collor). Todos, incluindo Wainer, tentavam provar que a matéria publicada no dia 12 de julho de 1953, pelo Diário de São Paulo, um dos jornais de Chateaubriand, era falsa.
Os Diários Associados e os demais inimigos do Última Hora estavam dispostos a confirmar de todas as formas que o “amigo do Homem” (como era também chamado Samuel Wainer devido à sua amizade com Vargas) não havia nascido no Brasil. E o que isso tem demais? Acontece que na década 50 e ainda hoje, de acordo com a Constituição Federal, somente um brasileiro nato ou naturalizado há mais de 10 anos pode ser dono de empresa jornalística. E por isso, Chatô e Lacerda, que não encontravam mais argumentos para colocar Samuel Wainer na cadeia sob a acusação de favorecimento oficial, não pouparam esforços para encontrar dados que comprovassem que ele havia nascido numa aldeia chamada Edenitz, na Bessarábia. Do outro lado, se defendendo da maneira que podia, estava o réu, afirmando que nascera no pacato bairro do Bom Retiro, em São Paulo.
Os algozes de Wainer se apoiavam num documento encontrado nos arquivos do Ministério da Educação, cujo conteúdo informava que ele chegara ao Brasil com 2 anos de idade. Em cada rebatida, Carlos Lacerda e Assis Chateaubriand não se intimidavam, pelo contrário, pareciam cada vez mais fortes para alcançar o objeto que tinham em comum. Em suas investidas mandaram repórteres ao bairro paulistano e tentaram achar papéis que comprovassem o embarque da família Wainer no porto de Gênova, com destino para América do Sul.
Ainda em sua defesa, Wainer teve amigos que se ofereceram para depor, alegando que haviam assistido sua circuncisão (que acontece no 7º dia de vida), o que provaria que ele de fato nascera aqui. Segundo Nelson Rodrigues, que escrevia “A vida como ela é...”. - uma das colunas do Última Hora -, “pode-se pendurar um sujeito numa forca, ou crivá-lo de balas, ou beber-lhe o sangue como groselha. Mas ninguém tem o direito de fazer o que a Comissão Parlamentar de Inquérito fez com Samuel Wainer”.

Realmente os passos dos inimigos caminhavam pouco macios sobre ele que, mesmo antes da morte de Getúlio, lutava praticamente sozinho. Porém, como mostra a história, em momento algum pensou em se entregar ao “Corvo” (nome com o qual apelidou Carlos Lacerda) e aos outros tantos que queriam vê-lo derrotado. Mesmo com todos os esforços para provar sua inocência, em outubro de 1955, Wainer estava sendo condenado pelo crime de falsidade ideológica, já que a dívida com o Banco do Brasil havia sido quitada e nada quanto a esse assunto ficou provado. Na cela do Regimento Caetano Farias, para onde fora mandado, se encontravam presos bastante interessantes: “dois advogados condenados por chantagem, um químico industrial que tinha matado a esposa adúltera, um médico mineiro de origem árabe que assassinou a mulher por suspeitar que está teria tentado prostituir a filha e um tenente do Exército preso por estelionato”, todos aparentemente simpáticos a Lacerda, como narra na autobiografia.


Apesar de estar extremamente mal acompanhado, os motivos que o levaram a solicitar uma transferência foram os rumores de um golpe articulado pelos militares “lacerdistas”, contra o então mais novo presidente da República, Juscelino Kubitschek. Graças à ajuda do médico Noel Nutels, que participou do grupo da revista Diretrizes, conseguiram transferi-lo para o Hospital da Polícia Militar.
Há exatos 50 anos, Samuel Wainer e sua esposa Danuza Leão acompanhavam por telefone as informações sobre o julgamento, no Supremo Tribunal Federal, do recurso que pedia sua absolvição. Finalmente, neste 23 de novembro de 1955, Wainer fora absolvido por unanimidade, pois o STF não se interessava em saber onde o dono de um dos jornais mais importantes do Brasil havia nascido.

Entretanto, não seria numa CPI e muito menos em páginas de jornais que desejavam ver o nome de Samuel Wainer na lama, que a informação quanto ao seu verdadeiro local de nascimento encontraria a seriedade que esse assunto passou a merecer. Na Escola de Comunicação da UFRJ (ECO/UFRJ), em 1996, uma dissertação de mestrado com o título de “Samuel. Duas vozes de Wainer” estava sendo defendida pela jornalista Joëlle Rouchou. Sob orientação da professora Heloísa Buarque de Hollanda, durante todo o trabalho, Joëlle se dedicou a compreender a identidade judaica e jornalística de Wainer. Para isso desenvolveu uma extensa pesquisa em busca de informações pouco discutidas e algumas até inéditas, tanto no conteúdo como na abordagem. Além das 1.300 páginas resultantes das transcrições das 53 fitas deixadas por Samuel Wainer - as mesmas que também serviram de material para Augusto Nunes em “Minha Razão de Viver”, - a jornalista que trabalhou no Jornal do Brasil (1978-1985) e na revista Veja (1985-1987), entrevistou parentes, amigos e ex-colaboradores. A tese foi transformada em livro em 2004, pela UniverCidade Editora, e é a primeira publicação a divulgar que Wainer realmente era bessarabiano. Nesta entrevista Rouchou fala um pouco sobre o livro e das razões que a levaram a escrever sobre o assunto.

sábado, novembro 04, 2006

SÃO JOÃO BATISTA



"Mister Place to Safe
was afraid to fly"
- O de sempre, algumas hierarquias e outras coisas mundanas -
Algumas pessoas dizem que o maior problema quando um ente querido morre e, antes, em vida, pede para ser cremado e ter suas cinzas jogadas ao mar ou em qualquer outro local, é a falta de um lugar especifico para se ir no dia de Finados.

Os túmulos servem para isso. Para que as pessoas mortas sejam sepultadas e para que aquelas que continuam vivas possam ir até eles. (Até um dia serem sepultadas também.) Uma visão fria da coisa resulta na conclusão de que a maior função desses “cofres de concreto” nada mais é a de suprir uma necessidade do psicológico humano.

No último dia 02 de novembro, o Cemitério São João Batista, em Botafogo, se encontrava repleto desse tipo de gente, com esse tipo de atitude. Eram homens e mulheres de todas as idades, que se dirigiam às sepulturas e nelas depositavam flores e rezas. Alguns choravam. Uns mais, outros menos. Outros não deixavam nada, não choravam também. Era como se estivessem apenas cumprindo com o dever da visita à alguém que não pode nunca mais sair de casa.

Não cabe julgar aqui se estão certos ou errados, nem tampouco discutir o tamanho da dor de cada um, mas seus gestos eram consideravelmente curiosos.

Assim que você entra neste cemitério, através do portão principal, existe uma espécie de rua que vai dar numa igrejinha, que fica por sua vez no alto de um morro. Ao dobrar a primeira rua à direita da cruz quase gigante fincada no chão e seguir um pouco mais adiante, encontramos por lá, neste dia, alguns fãs da cantora Clara Nunes. Além das flores, eles rezaram, cantaram, dançaram, bateram palmas, discursaram e sob o carneiro colocaram fotos, textos e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Estavam num grupo com cerca de 15 pessoas, todas vindas de Sorocaba, interior de São Paulo. Uma fã travestida de Clara Nunes também apareceu e, junto com o grupo, cumpriu todo ritual.

À esquerda da mesma cruz quase gigante está sepultada Carmen Miranda, cantora e atriz luso-brasileira. Desde o início do dia, Bob Lester, o único integrante do Bando da Lua que a acompanhava nos shows, fazia sua homenagem à “Pequena Notável”. Todo ano, na mesma data, ele sempre vai até o São João Batista e, sob o túmulo de Carmen espalha fotos da época em que ela e os amigos músicos estavam no auge da carreira. Bob foi muito solícito quando perguntamos se ele aceitaria nos conceder uma entrevista. Um jornalista, de uma renomada empresa de comunicação, aproveitou a brecha e também entrevistou Lester, cujo nome verdadeiro é Edgar. O mais interessante foi ver a reação das pessoas que passavam pelo local. Antes, sem câmeras e repórter, Bob Lester apenas era um velhinho debaixo de um sol muito quente, vestido de preto e usando um boné na cabeça, com uma pasta preta da qual retirava as tais fotos de Carmen e as organizava em cima da pedra de granito. Depois, ele se transformou no “entrevistado”, que além de responder às nossas perguntas e às do jornalista, passou a ser questionado pela pequena multidão que foi se formando em torno de nós.

Ainda à direita, encontramos um dos túmulos mais famosos deste cemitério. Na pedra está escrito: O tempo não pára. Dependurado numa espécie de arco estava um coração feito de rosas vermelhas. Pouquíssimas pessoas paravam para olhar. Mas quem parou fez algumas orações e também tirou fotografias. Agora, pergunto eu: qual a graça em ser fotografado ao lado do túmulo de alguém? Quem sabe o Cazuza, se estivesse vivo, não me daria uma boa resposta...

Andamos muito. Vimos muita coisa. Acredito também que devemos ter deixado de enxergar bastante. Tem lugares em que a minha sensibilidade não consegue chegar. Tem horas que falta sensibilidade para ver. Talvez isso seja natural.

Meninos negros passavam por nós vendendo água para as flores. Muitas crianças e adultos se revezavam nesta função. Do lado esquerdo, mais distante da rua principal, existe uma espécie de poço. Lá, você desce alguns degraus e consegue encher um balde com muita facilidade. A água para molhar as flores era vendida a um real cada dois litros dela. Quem não tem dinheiro durante a vida a vendia, quem tem dinheiro e alguns mortos a comprava.

Enquanto duas senhoras rezavam juntamente com duas freiras diante de uma sepultura, um garoto aparentando ter uns 12 anos de idade limpava o lugar. O menino se ajoelhou em cima do túmulo, começou a raspar o limo verde, enquanto a reza continuava. Não sei se isso para mim significa uma absurda inversão de valores, mas posso garantir que me soa estranho.

Sob a sepultura do “maestro soberano”, apenas algumas flores amarelas e pouquíssimas rosas vermelhas, coisa de 4 ou 5. Por sua vez, por cima da sepultura do ex-ministro da Educação, Gustavo Capanema, havia apenas uma garrafa plástica de leite Parmalat Premiun vazia.

Encontramos muitas urnas tumulares de famosos, porém os anônimos também representavam suas mortes sem deixar a desejar. Estátuas de gregos, de anjos, de pessoas. A menina e o pandeiro no túmulo de Ary Barroso. Quem será a anônima menina? As lápides com frases de conforto, as inscrições que traziam a mesma data de morte para uma família inteira, que nos remetia a imaginar o que teria causado isso.

Mas apesar da aparente morbidez, que pra falar a verdade nem chegou a se manifestar de fato, descobri que eu posso estar certa. Acredito na filosofia do If tomorrow never comes faz tempo. Se você gosta de alguém, seja esse alguém o que for, é importante que você deixe claro. Às vezes a coragem falta, como vem me faltando, porém é fundamental saber que o bacana de tudo está naquilo que você pode compartilhar, nos abraços que você pode dar, nas pessoas que você vai descobrindo, nas dificuldades e nas risadas que acontecem junto... Depois, quando o amanhã não vir mesmo, o que vai te restar é um infinito monólogo, algumas flores que precisam de água do poço e um punhado de orações por fazer.


Por isso, exercitem o barato da vida e não tenham medo de voar!

sábado, outubro 07, 2006

SOUZA AGUIAR e MIGUEL COUTO



Na maioria das vezes que nós, moradores do Rio de Janeiro e redondezas, escutamos esses dois nomes o que imaginamos? Dois prédios grandes? Bom, existe uma enorme probabilidade.
Um deles está localizado bem no centro da cidade, ao lado do Campo de Santana e, o outro, na zona sul, mais precisamente no bairro da Leblon.
Todavia, antes de terem servido para batizar hospitais da rede municipal, esses nomes já faziam referência a dois importantes homens da sociedade carioca.

O general Francisco Marcelino de Sousa Aguiar foi nomeado prefeito do Rio de Janeiro em novembro de 1906, pelo presidente Afonso Pena. Ao longo do seu governo procurou dar continuidade às obras da administração anterior e regularizar a situação financeira da prefeitura. Seu trabalho estava baseado em oferecer um serviço de assistência pública mais eficiente a toda população. Foi ele quem construiu o Posto de Assistência da Praça da República, que anos mais tarde veio a se tornar o Hospital Municipal Souza Aguiar.

Além de ter sido prefeito até 1909, o general foi membro de uma Comissão Brasileira que representou nosso país em Chicago, foi comandante do Corpo de Bombeiros do Rio, delimitou nossas fronteiras com o Uruguai e, devido sua formação acadêmica em engenharia, trabalhou no projeto do prédio do Hospital Central do Exército (HCE). Foi ele também o responsável pela construção da Biblioteca Nacional, do Palácio Monroe (que foi demolido em 1976), do Palácio da Prefeitura, do Teatro Municipal e de demais patrimônios de reconhecida importância.

Pelo projeto do polêmico Monroe, Souza Aguiar recebeu o 1º Prêmio de arquitetura da exposição Internacional de Saint-Louis, nos Estados Unidos , em 1904.

Miguel de Oliveira Couto, por sua vez, foi um importante médico neurologista formado pela Academia Imperial de Medicina, em 1883. Durante sua trajetória profissional foi assistente da cadeira de Clínica Médica até doutorar-se no ano de 1885. Foi membro titular da Academia Nacional de Medicina, da qual chegou a ser duas vezes presidente.

Sendo pesquisador no setor da saúde pública, Miguel Couto deixou uma extensa obra nessa área. Como reconhecimento pelo brilhante trabalho desenvolvido, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). No campo da política destacou-se como deputado na Constituinte de 1934.

Enquanto Presidente Honorário da Associação Brasileira de Educação foi o responsável pela criação de um dos lemas da ABE (naquela época), que na verdade, era o título da conferência que proferiu no dia da cerimônia de posse: "No Brasil só há um problema: a educação do povo".

Entre seus legados está a considerável contribuição para o estudo das desordens funcionais do pneumogástrico na influenza, da gangrena gasosa fulminante, do diagnóstico precoce da febre amarela pelo exame espectroscópico da urina e as diversas lições de clínica médica.
Em 1935, ainda em construção, o hospital que seria chamado de Hospital Periférico Regional da Gávea, foi batizado de Hospital Gastão Guimarães, em homenagem ao secretário de Saúde da gestão Pedro Ernesto. Mas depois que o então presidente da República, Getúlio Vargas, demitiu o prefeito e colocou no cargo o cônego Olímpio de Melo, mudanças foram realizadas. Quatro dias antes da inauguração que aconteceu em 25 de outubro de 1936, o hospital mudou de nome para Hospital Municipal Miguel Couto.
Além de todo o registro político e acadêmico, esses dois nomes são sempre lembrados mesmo por quem não faz idéia alguma de toda ou até mesmo de parte da história, pois, por exemplo, quando há tiroteio nas favelas da Rocinha e do Vidigal, as vítimas acabam sendo socorridas no Miguel. E, em se tratando da maior emergência da América Latina, o Souza, é o responsável pelo, também, maior número de atendimento de todo o tipo e espécie.
Na hora do aperto e, antes e depois dele, para algumas pessoas nomes são apenas nomes.
O que é uma pena!

quarta-feira, agosto 02, 2006

FIDEL... Será o fim ?

Fidel Alejandro Castro Ruz nasceu no dia 13 de agosto de 1943, num pequeno povoado do município de Mayarí, na província de Holguín.
Prestes a completar mais um ano de vida, o presidente cubano manda recados ao povo. Após ter sido submetido a uma cirurgia de emergência no intestino, na segunda-feira, ele mesmo afirma que sua situação é estável e que está de bom humor. Em seu comunicado, Fidel também admitiu que a operação o obriga a ficar por algumas semanas de repouso.
Podemos constatar que o motivo não é tão banal assim, pois está gerando ineditismos que estão sendo bastante comentados. Esta é a primeira vez durante todo o governo que Fidel Castro transfere seus poderes a uma outra pessoa. O escolhido foi seu irmão Raúl, que provisoriamente ocupará os cargos de primeiro-secretário do Partido Comunista, de presidente de Conselho de Estado e de comandante-em-chefe das Forças Armadas. Cabe lembrar que o irmão mais novo de Fidel é também seu sucessor de acordo com a Constituição cubana.
Fidel Castro é considerado por algumas pessoas como sendo o líder da revolução social; por outros grupos ele é o tido como o tirano de um regime ditador.
Os EUA, como não é de se estranhar, empolgam-se oferecendo ajuda à Cuba para que seja feita a transição do poder depois da morte do Presidente...
Os norte-americanos falam em “democracia”.

domingo, junho 11, 2006



"NO RIO EXISTE GUERRA?"
O documentário ficou pronto sob o título de "No Rio Existe Guerra?". A professora nos explicou que não é aconselhável usar frases interrogativas como título, mas quando ela entendeu o que se pretendia com isso, acabou gostando da idéia. O documentário que alguns de meus colegas e eu fizemos, trata da questão da violência no Rio de Janeiro. Depois de 2 meses de trabalho, de algumas reuniões fracassadas, de alguns telefonemas e entrevistas, de vários e-mails trocados, de noites e dias de sono mal dormido, depois também de sentir dores nos ombros, de sentir vontade de rir, depois de encontros que não vão ser esquecidos tão facilmente, depois de exercitar a paciência (e aprender a exercitá-la), etc, etc, etc. O que ficou disso tudo, pelo menos pra mim, é que você não sabe MESMO o que pode acontecer com você. Acho que mais do que violência urbana, o documentário fala disso, da nossa completa incapacidade de prever as coisas que acontecem com a gente. Mais uma vez fica confirmado o quanto é importante deixar claro pras pessoas que a gente gosta o sentimento que a gente tem por elas.
Meu muito obrigada a todos que contribuíram para que o documentário se tornasse real.

domingo, junho 04, 2006



ARMAS
COMUNICANTES

Passei o sábado lendo a respeito das tais "armas comunicantes" utilizadas pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que por meio delas tenta promover a democracia e a justiça, no México. O nome "armas comunicantes" é devido ao fato do EZLN fazer uso de palavras para informar e sensibilizar todas as pessoas do mundo sobre o que acontece na América Latina e, principalmente, na região mexicana.

Antes do fim da Guerra Fria a comunicação dos grupos guerrilheiros era feita numa escala piramidal, onde quem estava no topo da pirâmide acabava sendo aquele com o maior capital de informação e poucas eram as pessoas que tomavam conhecimento do que acontecia naquele período tão conturbado para todas as nações. Com o fim do bloco socialista as informações passaram a circular (o receptor não era mais elemento passivo e começou a dialogar com os emissores) e a internet foi uma grande responsável por essa mudança. O EZLN até hoje faz uso do correio eletrônico para, realmente, dialogar com todo o mundo. Pode parecer estranho, mas a globalização permitiu também o acontecimento de um sincretismo cultural-nacional nas áreas de atuação do EZLN.

Todas as mudanças, para serem explicadas, mereceriam muitos mais parágrafos. Então, a quem estiver interessado no assunto, sugiro que procurem na internet mesmo, por maiores detalhes. Ressalto que vale a pena! Pude perceber que quando você se esforça por um ideal digno e possui pessoas de bem ao seu lado, apesar de levar algum tempo, as coisas têm uma considerável probabilidade de acontecer.

Toda uma história que parecia velha (ela já estava com 500 anos) e eterna acabou sendo reescrita ...

domingo, maio 28, 2006






1º de julho de 2004.
Mario e Ana



NO AGORA


Faz 11 dias que não se vêem e apesar de todos os motivos que ela deu para que ele nunca mais a procurasse, ele mais uma vez investiu suas últimas forças nesse caso esquisito. Faz 11 dias que não se vêem porque ele teve que viajar como sempre faz a cada final de semestre. E agora, no agora, ele sente uma enorme vontade de dar na cara da própria mãe. Freud talvez traduziria isso como sendo uma neurose compreensivél, todavia, para ele não passa da inocente necessidade de esbravejar o chilique que sente precisar dar na frente da mulher que o pariu num dia de fevereiro de 77, principalmente, quando ela se mostra nada apavorada, fugindo a todos os padrões de histeria, o irritando. Não é difícil tirá-lo do sério. Qualquer coisa o aborrece. O fato é relevante, pois existe sempre uma boa explicação para que ele mude o temperamento e tenha vontade de arrancar braços e outros membros das pessoas que como ele mesmo diz, o “atrapalham”. Provavelmente seja algo parecido com a tal bipolaridade emocional, ora um anjo querubim, outrora bicho. Bicho que não quer matar em hipótese alguma. Não pensa em assassinato, pensa em fazer sofrer. Não suporta muito a mãe. E estando há 11 dias sem ver e sentir e ter certeza de que Ana vai bem, fica mais estranho ainda. Mais desligado das coisas do real, cumprindo tarefas no automático, lendo livros no automático, ouvindo música no automático, odiando aqueles que precisam do seu ódio para viver no automático. Jamais o dê ordens. Um sorriso imediatamente se transforma em ruga na testa. Não sinta pena, porque é somente disso que nasce a tão evitada vontade de matar, de abrir animais para ver como são por dentro, de subir no alto e imaginar como é se jogar de lá. Então lembra de episódios passados, como as férias em Abracadabra, o beijo em São Paulo, da trepada ao som da Marisa Monte e dos filmes que adora. Desce do alto, não abre porra nenhuma, não mata ninguém e deseja que o ócio faça mal para o filho da puta que ousou sentir pena dele. E se for verdade mesmo, se os 11 dias sem vê-la são mesmo verdadeiros, ele não deve estar cabendo em si de saudade, com aureola de menino bom. Ela é como música dos Beatles, como “Here comes the sun” tirando alguma coisa. Ela teve todas as chances para ser “Two of us”, mas não se sabe direito o porquê, ela não foi. Onze dias sem Ana. 264 horas sem Ana. Isso é bem mais que os segundos que consegue ficar prendendo a respiração. E ele nem tem paciência para prender a respiração. Sem ela já há mais de 5 pores-do-sol. Ana não liga para o pôr-do-sol. Não se importa. Ana gosta da lua. Ele gosta do sol. Ana, lua. Ele, sol. Por isso ela não é “Two of us”. Não por não gostar daquilo que ele gosta, mas por serem tão diferentes. Ele aprendeu a gostar do O Rappa, mas ela não se interessou pelo Lennon , nem pelo Paul que é mais risonho, nem mesmo pela possível viagem para Liverpool em dezembro do ano passado. Nunca teve The Trip. Porque Ana preferiu viajar com os amigos. Ana foi acampar com os amigos nas noites de algum meio-do-mato perto do litoral. Ana. Ana viu a lua. A maior droga disso é que Ana viu a lua sem ele e, fodendo com a situação de vez, Ana viu a lua sem ele e estava feliz. O namoro babaca de mentira acabou ao som dos soluços dele. Era hora de ser bicho, morder os lábios da mulher que com palavras articuladas o mandava ir pastar, porque preferia os amigos àquele idiota. Mas ele não virou bicho e quando não vira bicho chora. Chora só por motivos que realmente merecem choro. E chorou, um instante de raiva, de medo, de ódio, de falta de saco para aturar algo tão constrangedor. Nem Eleanor Rigby suportaria. E essa não foi a primeira e nem será a última vez que deixou de sofrer sua tão característica mutação. Ana o fez chorar mais outras vezes. Ana que viu a lua, que está longe faz 11 dias, sai e entra do coração dele quase que toda hora. No agora, que anda confuso, porém calmo, ele se desliga e quando volta, volta nela. E quando volta, volta sozinho.

No início desse relacionamento o grande problema era o descaso. Ao pé da letra: desprezo; desatenção; pouco-caso; falta de cuidado; descuido; desleixo, segundo o dicionário. Ausência total de amor, segundo ele. E nessa história que se dane ele, pois assim na maior parte das vezes prefere ela. Ela que escuta o Marcelo D2 e tem o Falcão como conselheiro espiritual para tomar importantes decisões. Ela que adora o Bob Marley, porque ele era maluco e fumava maconha. Ela que adora comer frango grelhado e couve refogada. Ela que lê pouco, mas que tem boa vontade para um dia quem sabe ler livros “grossos” do princípio ao fim. Ela que esnobou o Colégio de Artes de Laranjeiras. Ela que tem um bom motivo para ter esnobado o (a) CAL. Ela que nunca ouviu falar em Tracy Chapmam e muito menos do Fito Paz, mas que por bondade divina não teve como fugir do Carlos Santana. Ela que não ronca enquanto dorme. Ela que tem uma boca linda de morrer e parece não saber disso. Ela e aquele jeitinho só dela. Ele, pensando, tenta compreender porque foi mesmo que as coisas aconteceram dessa maneira. Já que se conheceram sem querer, em pouco mais de uma semana já se viram nus um de frente para o outro, que começaram um namoro que durou poucos dias que podem ser contados nos 20 dedos dele e em 10 dos dela, com acompanhamento de bombinha antibiótica para combater os infinitos males respiratórios dele, junto veio a família dela; que passados quatro meses Ana foi a procura dele, voltaram; muitos beijos na boca, trepadas, semi-trepadas e mais um fim; até que voltaram em onda de des-compromisso total. Ele, não sabendo se ainda gostava dela. Ana, diferente.



REGRA NÚMERO UM DESTE CAPÍTULO



Sempre peça informações quando estiver perdido, desorientado, sem saber por qual caminho seguir.
Indiretamente um dos amores da sua vida pode vir com a resposta.



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Exato. Dia quente, sol, ele perdido. “Por favor, para onde fica...?” Finalmente alguém para ajudar esse pobre ser que não conhece o Rio de Janeiro de cabo a rabo. A amiga dela deu as coordenadas, foi gentil e o acompanhou, porque naquela hora, naquele exato, exato instante, estavam os dois querendo ir para o mesmo lugar. E chegando lá, no lugar, veio Ana saída de um ônibus na sua direção. Ana estava acompanhada. E acompanhados sentaram os dois e trocaram as primeiras impressões e curiosidades que jamais revelariam a um desconhecido. Por ele, a beijaria imediatamente. Ana não era igual, parecia ser do bem, porém algo o dizia que o mal estava naquela mulher e nada melhor que misturar as duas coisas num corpo tão bonito como aquele. Não é um corpo de parar multidões pela rua, é um corpo que se observado com atenção, dá sinal de que possui segredos. Ele sendo o curioso que é, quis saber o que de tão misterioso continha ali. Ali, naquela armadura de carne e osso que não falava muito gestualmente, que precisava, ele sentiu isso, ser lapidado e aberto aos poucos, coisa que sua impaciência não permitiria, mas que mesmo assim resolveu encarar. O que será que Jung diria sobre isso? Para a puta que pariu com essa história de “Sincronicidade”. Ana era o perfeito acaso, a perfeita coincidência, a perfeita morte de um antigo amor. Ana matou um pouco outro amor que ainda existe e nunca um pseudoassassinato fez tão bem à alguém. E neste caso Jung entornaria da boca sabiamente que "o homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera. Elas se mudam para a casa vizinha e poderão atear o fogo que atingirá sua casa sem que ele perceba. Se abandonarmos, deixarmos de lado e, de algum modo esquecermo-nos excessivamente de algo, corremos o risco de vê-lo reaparecer com uma violência redobrada”. Por isso, mais uma vez, ele deu sua cara à tapa. E Ana, bateu.

Doses cavalares de experiências o transformaram no que é hoje. Um futuro jornalista voyeur, praticante de sexo seguro; contra, porém também praticante da traição; fã do Neil Young, ex-Buffalo Springfield, por ele provavelmente ter sido um dos poucos canadenses que fizeram duas coisas importantíssimas na vida: tocar em Woodstock e, como conta alguns, namorar a Joni Micthel. Mario Odetta é mais ou menos isso. Calmo, muitas vezes nervoso. Coisa de quem convive com futuros publicitários, marqueteiros político e advogados. Para Mario, nenhum deles presta. É claro que tem uma escala e nela os marqueteiros são os piores, porque nem todo publicitário quer te vender um safado analfabeto que passa parte da vida prometendo boas ações e outra parte não cumprindo com as promessas. Publicitários até alegram a vida, afinal foram eles que criaram aquela propaganda da Parmalat. Lembra? Tudo bem que no fim das contas quem acabou “tomando” foram os produtores de leite e alguns muitos empregados pais de família. Já as advogados, pobres advogados, deles o que sobra é pena. São advogados aqueles que na hora da inscrição do vestibular não tinham idéia de onde marcar a porcaria do X (xis). Todo mundo conhece o tal conto de que quem não sabe o que fazer da vida vira advogado. Mario se forma daqui a 2, talvez 2 anos e meio, mas já sabe que ser jornalista hoje em qualquer lugar do mundo, principalmente no Brasil, é super neurótico. Ensinam um monte de coisas estúpidas na faculdade, outras totalmente inúteis e ainda tem aquelas que quando são postas em prática levam à perda do emprego. Como por exemplo ter imparcialidade, ética e verdade, dentro de um veículo que exige uma matéria sobre alimentos saudáveis e tem como maiores anunciantes a Coca-Cola e o Mc Donald’s. Mas Mario não pretende se desesperar antes do tempo, talvez entre de cabeça no sistema, se case, viaje nos finais de semana com a família, volte sempre para casa no domingo à tarde, enfrentando engarrafamentos porque segunda-feira começa o trabalho que vai até a sexta; e quem sabe no próximo fim de semana... dê para viajar de novo... com a família... voltar para a casa no domingo à tarde... num engarrafamento cu... porque segunda-feira começa o trabalho que vai até sexta e...
Aninha... linda atriz de teatro que fez a peça do Pato.
Ana faz alguma coisa que ele não entende. Ela faz teatro no Humaitá. Ela fez a peça do Pato e Mário foi ver. Tirando isso ela faz coisas que precisam de calculadora. Mario sabe que ela gosta da parte de Mídia. Não é pouco caso. Ele só não se propôs muito a entender o que a atual mulher dos seus sonhos faz, porque em tudo que era anotação dela tinha números e mais números e diferentes sinais matemáticos e palavrinhas curtas em inglês que o fez lembrar dos publicitários. Todavia, sabe que Ana se sente feliz trabalhando com Mídia. Sabe porque ela sempre sorri. E fica mais feliz quando se esforça e consegue bons resultados. E esse é um dos segredos que ele descobriu. Gosta da determinação que vem dela. Gosta de nunca vê-la desistir. É bem provável que ela termine a faculdade primeiro que ele, já que Odetta atrasou seu curso por cair naquela crise de universitário. “Por que estou aqui? Por que eu faço isso? Será que eu sou mal? E o mundo é isso aí? O que vai ser de mim?” E lá foi ele, jogou tudo para um canto e resolveu ser militar. Passados seis meses voltou. Algo lhe diz que deve ser um miserável razoavelmente esclarecido. E entre as coisas de Ana, entre as folhas de números e outdoors, busdoors, briefing, etc, encontrou nomes de antigas amizades, paixões e porque não amores dela. Leu, poucas letras, fechou. Foi como se o Neil Young tivesse encontrado o nome do David Crosby nas coisas da Joni. Como consolo restava a certeza de que os cabelos dela, curtos, era ele quem puxava; a boca, “bocão”, era ele quem beijava; o corpo, relicário, era a ele quem guardava; e talvez em alguma hora do dia, era nele em quem ela pensava e desejava mesmo que pouco, estar próxima.
Nada de histeria. Ana desde o dia que nasceu estava predestinada a mover poucas montanhas e a orientar os amantes desorientados desse planeta. Depois dela Mario passou a ser menos egoísta, mais compreensivo, passou a usar das qualidades humanas sem sentir tanta dor. Demorou e até hoje não sabe muito bem escutá-la, não sabe demonstrar o quanto ela o faz ser mais alegre e preocupado. Nunca, apesar de tanto tempo, o relacionamento dos dois atingiu o nível tão esperado por ele. Ana nunca abriu mão de feri-lo com as palavras, talvez fizesse isso sem perceber, falava de outras pessoas que ela as colocava entre eles, falava em ir a lugares e estar feliz pela ausência dele. Como nos dias que viu a lua, nos dias em que ele procurava se entreter com a Tv, com os livros e jornais, com as “Vejas” antigas que guarda no armário, com a rádio que só toca música brasileira, com o computador e com o resto de Mate Leão na porta da geladeira. Até a hora que resolveu mandá-la ir à merda, que repensou sobre essa decisão, mandando seu pensamento fazer com que ela retornasse da merda e voltasse para ele. Ficou nisso à tarde toda. Percebeu então que o melhor lugar para ela em relação a ele e a meda era o meio do caminho. Ana nem é parecida com a Sandra Bullock para merecer tanta consideração, mas o que Mario não fazia idéia era que as forças de atração entre suas porções de matéria ocupavam o mesmo espaço ao mesmo tempo. E qual será o espaço de uma força?
(Continua)

quarta-feira, março 22, 2006


50 anos da absolvição de Samuel Wainer
por Geórgia Detogne


" O jornalista não é um criador de fatos, ele é um transmissor
e precisa saber ver. E saber ver é só vivendo."
Samuel Wainer

"Isso. Essas coisas que acontecem que só Deus explica. Porque eu acredito nisso. É o que eu digo para os meus alunos, um furo de reportagem acontece para quem corre atrás. Se você abre canais para que as coisas aconteçam, elas acontecem. Se você ficar em casa esperando Samuel Wainer bater na sua porta, isso não vai acontecer. É isso mesmo. A sorte vem para quem corre atrás."
Joelle Rouchou


No dia 23 de novembro de 1955, o jornalista Samuel Wainer vivia o que para ele foi um dos dias mais emocionantes de sua vida. Em outubro, fora condenado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro a um ano de prisão pelo crime de falsidade ideológica. No mês seguinte, Wainer estava livre e deixava o único quarto para presos especiais que existia no Hospital da Polícia Militar, na rua Frei Caneca.

A morte de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, serviu para que seus inimigos finalmente pudessem se concentrar em uma única missão: destruir Samuel Wainer. Era um ótimo momento para acabar com o Última Hora, jornal criado por ele, que se diferenciava dos demais periódicos por ser o único a apoiar o governo da época e, que além de se dirigir àqueles que faziam parte da elite, também estava intensamente voltado para as camadas populares. Por meio dele, os leitores acompanhavam o que acontecia na Era Vargas de 1951 a 1954. No Palácio do Catete, o jornalista Luis Costa estava atento a tudo que se passava e as informações colhidas eram publicadas na coluna intitulada “O Dia do Presidente”, que existiu na página 3, desde o surgimento do jornal até o suicídio de Getúlio.

Assis Chateaubriand (dono dos Diários Associados e ex-patrão de Samuel Wainer) e Carlos Lacerda (dono da Tribuna da Imprensa) foram os principais acusadores na Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada inicialmente para investigar a origem do dinheiro utilizado na montagem do Última Hora e que teve na questão da nacionalidade de Wainer um de seus pontos mais importantes. Chatô era o patrão abandonado pelo grande repórter que deu aos seus dois jornais, Diário da Noite e O Jornal, uma vendagem de 180.000 exemplares cada, com a matéria que anunciava o retorno de Vargas ao poder.

Tudo começou quando Samuel Wainer fora mandado ao Rio Grande do Sul, em fevereiro de 1950, para fazer uma reportagem sobre a plantação de trigo na região, quando viu que sobrevoava a fazenda onde se encontrava Getúlio Vargas, imediatamente deu ordens ao piloto para aterrissar. O resultado de tal ousadia foi a entrevista que mais tarde ficaria famosa por noticiar em primeira mão o retorno do ex- ditador, que desta vez estava disposto a voltar ao comando do país como líder das massas. Neste instante começava a ser escrita a história sobre um jornalista que sonhava em ser dono de jornal e de um presidente do Brasil que o ajudou a realizar esse sonho.

Invejas, vaidades, ciúmes, ódios e outros tipos de sentimentos similares também começavam a aparecer. Lacerda era um ex-amigo que tinha se rebelado, que deixava dona Dora, mãe de Samuel, apavorada e aos prantos por não entender o que levava o “rapaz bonzinho” que freqüentava a casa dos Wainer, a odiar tanto seu filho. Além dos desafetos que nutriam pelo fundador do Última Hora, Chateaubriand e Carlos Lacerda também eram ferozes opositores de Vargas.

Na autobiografia, que leva o título de “Minha Razão de Viver – memórias de um repórter”, publicada pela primeira vez em 1987, Wainer se descreve como sendo “um judeu do Bom Retiro, sentado à mesa com os donos de jornais”. Esses mesmos donos antigetulistas desejavam vê-lo longe das salas de reunião, dos outros ambientes sociais e, principalmente, fora dos meios de comunicação. O plano era destruir o Última Hora sob o pretexto de que este era uma ameaça para imprensa brasileira, logo, destruir seu proprietário, porque Samuel e seu jornal eram um só. A segunda tarefa era a de aniquilar Vargas.

Entretanto, por ironia do destino, o presidente tratou de dar fim à sua vida. E o velho clichê foi consumado: o feitiço virou-se contra o feiticeiro. A idéia de uma CPI partiu do próprio jornalista e teve o apoio de Getúlio. Ambos acreditavam que por meio dessa comissão a trajetória do Última Hora poderia ser investigada, dando fim às denúncias de favorecimento ilícito advindos do Banco do Brasil.

Wainer contava com os votos da maioria governista do Legislativo para derrotar aqueles que representavam a União Democrática Nacional (UDN), ligados a Lacerda. Porém esta maioria o acabou traindo e demonstrando qual era o grau de prestígio que Vargas tinha naquele momento. Além do mais, o jornalista dispensou advogados na primeira fase das investigações e como ele mesmo conta, talvez se não tivesse feito isso “escaparia dos dissabores provocados por escorregões decorrentes da falta de experiência jurídica”. Em outra etapa, no ano de 1955, evitou o erro que cometera no passado e foi defendido por um grupo de profissionais devidamente habilitados, dentre eles estava o jurista Evandro Lins e Silva (o mesmo que defendeu mais de 2.000 presos políticos no Estado Novo e redigiu o pedido de impeachment de Fernando Collor). Todos, incluindo Wainer, tentavam provar que a matéria publicada no dia 12 de julho de 1953, pelo Diário de São Paulo, um dos jornais de Chateaubriand, era falsa.

Os Diários Associados e os demais inimigos do Última Hora estavam dispostos a confirmar de todas as formas que o “amigo do Homem” (como era também chamado Samuel Wainer devido à sua amizade com Vargas) não havia nascido no Brasil. E o que isso tem demais? Acontece que na década 50 e ainda hoje, de acordo com a Constituição Federal, somente um brasileiro nato ou naturalizado há mais de 10 anos pode ser dono de empresa jornalística. E por isso, Chatô e Lacerda, que não encontravam mais argumentos para colocar Samuel Wainer na cadeia sob a acusação de favorecimento oficial, não pouparam esforços para encontrar dados que comprovassem que ele havia nascido numa aldeia chamada Edenitz, na Bessarábia. Do outro lado, se defendendo da maneira que podia, estava o réu, afirmando que nascera no pacato bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

Os algozes de Wainer se apoiavam num documento encontrado nos arquivos do Ministério da Educação, cujo conteúdo informava que ele chegara ao Brasil com 2 anos de idade. Em cada rebatida, Carlos Lacerda e Assis Chateaubriand não se intimidavam, pelo contrário, pareciam cada vez mais fortes para alcançar o objeto que tinham em comum. Em suas investidas mandaram repórteres ao bairro paulistano e tentaram achar papéis que comprovassem o embarque da família Wainer no porto de Gênova, com destino para América do Sul.

Ainda em sua defesa, Wainer teve amigos que se ofereceram para depor, alegando que haviam assistido sua circuncisão (que acontece no 7º dia de vida), o que provaria que ele de fato nascera aqui. Segundo Nelson Rodrigues, que escrevia “A vida como ela é...”. - uma das colunas do Última Hora -, “pode-se pendurar um sujeito numa forca, ou crivá-lo de balas, ou beber-lhe o sangue como groselha. Mas ninguém tem o direito de fazer o que a Comissão Parlamentar de Inquérito fez com Samuel Wainer”.

Realmente os passos dos inimigos caminhavam pouco macios sobre ele que, mesmo antes da morte de Getúlio, lutava praticamente sozinho. Porém, como mostra a história, em momento algum pensou em se entregar ao “Corvo” (nome com o qual apelidou Carlos Lacerda) e aos outros tantos que queriam vê-lo derrotado.

Mesmo com todos os esforços para provar sua inocência, em outubro de 1955, Wainer estava sendo condenado pelo crime de falsidade ideológica, já que a dívida com o Banco do Brasil havia sido quitada e nada quanto a esse assunto ficou provado. Na cela do Regimento Caetano Farias, para onde fora mandado, se encontravam presos bastante interessantes: “dois advogados condenados por chantagem, um químico industrial que tinha matado a esposa adúltera, um médico mineiro de origem árabe que assassinou a mulher por suspeitar que está teria tentado prostituir a filha e um tenente do Exército preso por estelionato”, todos aparentemente simpáticos a Lacerda, como narra na autobiografia.

Apesar de estar extremamente mal acompanhado, os motivos que o levaram a solicitar uma transferência foram os rumores de um golpe articulado pelos militares “lacerdistas”, contra o então mais novo presidente da República, Juscelino Kubitschek. Graças à ajuda do médico Noel Nutels, que participou do grupo da revista Diretrizes, conseguiram transferi-lo para o Hospital da Polícia Militar.

Há exatos 50 anos, Samuel Wainer e sua esposa Danuza Leão acompanhavam por telefone as informações sobre o julgamento, no Supremo Tribunal Federal, do recurso que pedia sua absolvição. Finalmente, neste 23 de novembro de 1955, Wainer fora absolvido por unanimidade, pois o STF não se interessava em saber onde o dono de um dos jornais mais importantes do Brasil havia nascido.

Entretanto, não seria numa CPI e muito menos em páginas de jornais que desejavam ver o nome de Samuel Wainer na lama, que a informação quanto ao seu verdadeiro local de nascimento encontraria a seriedade que esse assunto passou a merecer. Na Escola de Comunicação da UFRJ (ECO/UFRJ), em 1996, uma dissertação de mestrado com o título de “Samuel. Duas vozes de Wainer” estava sendo defendida pela jornalista Joëlle Rouchou. Sob orientação da professora Heloísa Buarque de Hollanda, durante todo o trabalho, Joëlle se dedicou a compreender a identidade judaica e jornalística de Wainer. Para isso desenvolveu uma extensa pesquisa em busca de informações pouco discutidas e algumas até inéditas, tanto no conteúdo como na abordagem. Além das 1.300 páginas resultantes das transcrições das 53 fitas deixadas por Samuel Wainer - as mesmas que também serviram de material para Augusto Nunes em “Minha Razão de Viver”, - a jornalista que trabalhou no Jornal do Brasil (1978-1985) e na revista Veja (1985-1987), entrevistou parentes, amigos e ex-colaboradores. A tese foi transformada em livro em 2004, pela UniverCidade Editora, e é a primeira publicação a divulgar que Wainer realmente era bessarabiano. Nesta entrevista Rouchou fala um pouco sobre o livro e das razões que a levaram a escrever sobre o assunto.


Geórgia Nepomuceno: “Samuel. Duas vozes de Wainer” é sua dissertação de mestrado. É verdade que foi a partir da revista Diretrizes que seu interesse pelo Samuel Wainer surgiu?


Joëlle Rouchou: É. Eu estava procurando um assunto para fazer minha dissertação de mestrado e eu já trabalhava na Casa de Rui Barbosa. Hoje sou pesquisadora, mas na época eu era assessora de imprensa. A Heloísa Buarque de Hollanda já era minha orientadora e eu estava trabalhando com uma revista feminina, então, tudo que eu escrevia a Heloísa dizia: “Não, Joëlle. Você está falando mal das mulheres”. Aí eu disse: “Não, não está dando”. Ela falou assim: “Vai trabalhar com mãe judia”. Trabalhar com mãe judia? Comecei a procurar coisas do meu ex-sogro, o Octávio Malta, o amigo do Samuel. Então, eu tinha acesso à Diretrizes e fiquei encantada com a revista de fato. Além disso, o personagem Samuel Wainer sempre aparecia nas conversas com meu sogro e com minha sogra. Ele era um personagem, mas ele era amigo daquela família. Então todo passado deles sempre tinha Samuel, Jorge Amado, enfim, toda essa galera da Diretrizes. E eu comecei a ver Diretrizes e comecei a achar incrível a revista. A revista é impressionantemente bem feita, uma revista que não tem igual, ela é super legal. Pensei: “Como é que será o Samuel?”. Vou ver se eu consigo um arquivo dele. Liguei para a Danuza Leão que não quis falar, mas me deu o telefone da Pinky. Liguei para a Pinky, que eu não conhecia. Ela disse: “Olha, ele não tinha arquivos, mas tem todas as fitas transcritas, que é o material dele”. Aí que eu fui ver e aí que eu saquei que tinha uma outra vida. Li duas coisas que me interessaram: o judaísmo e o jornalismo. Então fui verificar até que ponto um não dava o impulso para o outro vencer. Aquilo do judeu imigrante que vinha para cá e que queria provar que podia se dar bem.

GN: Você é judia, certo?


JR: Sou. Mas eu não pensava em trabalhar com isso. Eu me lembro que eu fui falar com o Muniz Sodré, que era o diretor da Escola (ECO/UFRJ), falei: “Muniz o que é que eu faço? Por que eu sou judia, eu vou trabalhar com judeu?”. Ele falou assim: “Uái! E negro não trabalha com negro? Qual é o problema? Não há o menor problema nisso”. Aí eu fiquei um pouco assim... Quando eu abro as páginas transcritas e vejo que o Wainer abre essa questão que é um ponto para ele, que é o diálogo que ele tem com o filho, eu achei que eu tinha uma chave, que tinha alguma coisa por aí. Então eu fui fichando as mil e tantas laudas.


GN: Mas como é que foi? Você pegou o telefone, ligou para a Danuza, em seguida, ligou para a Pinky e ela te disponibilizou o material numa boa?


JR: Isso. Essas coisas que acontecem que só Deus explica. Porque eu acredito nisso. É o que eu digo para os meus alunos, um furo de reportagem acontece para quem corre atrás. Se você abre canais para que as coisas aconteçam, elas acontecem. Se você ficar em casa esperando Samuel Wainer bater na sua porta, isso não vai acontecer. É isso mesmo. A sorte vem para quem corre atrás.

GN: É isso que a gente vê no seu livro, o Samuel dizendo que “vai dar!”. Aquela idéia de que não importa se eu não vencer a guerra, pelo menos eu vou até lá brigar.


JR: Mas é isso. Você vai atrás e as coisas vão acontecer na vida. Mas foi uma sorte danada, porque a Pinky ficou super envolvida. Não sei o que aconteceu, essa cena é inexplicável, porque ela podia ter sido tão dura, falado para eu ir até a Secretaria Estadual e pegar o material que tem lá. Mas ela foi um barato. Ela fez a capa do livro e recuperou o azul da Última Hora. Ficou linda. Eu adoro. O tempo todo eu dava notícias para ela da dissertação enquanto eu estava escrevendo. E ela sempre interessada.

GN: Você também a entrevistou?

JR: Fui para São Paulo, entrevistei Pinky, entrevistei a tia dela, que foi quem me falou que o Samuel realmente tinha nascido na Bessarábia.


GN: Teve alguma coisa durante a pesquisa que você ficou com dúvida e não deu para encontrar a resposta até o final?


JR: Não. Não teve não. Fui fechando tudo o que eu podia. Tem que ser, senão não passa. Poderia ter alguma coisa aberta que eu até diria na pesquisa: fui atrás disso, aquilo... Você vai fechando na verdade, vai delimitando seu objeto. Aí você vai vendo. Tudo quando começou era polifônico. Todas as rotas do Samuel: era o Samuel repórter, Samuel editor, Samuel jornalista, Samuel dono de jornal, Samuel político. Umas 10 categorias.

GN: Você levou quanto tempo nesse trabalho?


JR: Três anos trabalhando.


GN: E como foi para organizar?

JR: É muito bom. Dá trabalho, mas é isso.

GN: Tem uma coisa da ansiedade, do fazer logo?


JR: Não, eu ia fazendo. E também porque na hora de escrever, eu escrevi em 15 dias. Já estava tudo pronto, tudo estruturado, tudo pesquisado. Em 15, 20 dias no máximo eu escrevi. Todo dia. Fiquei em casa escrevendo. Tirei férias e fiquei escrevendo. Mas escrever não é tão difícil.

GN: A pesquisa foi mais complicada?

JR: Complicado é você pesquisar direitinho. E aí a Helô (Heloísa Buarque de Holanda) quando viu essas categorias ela falou: “Não, não, não. Escolhe dois assuntos e fecha com dois só”. Mas para mim era muito pouco. Mas ela disse que não e que logo eu iria ver. Até porque eu encaixava.

GN: E como é que foi a escolha dessas duas categorias?

JR: Eu fiquei assim: a voz do jornalista, que era a voz pública, que era como ele se apresentava. E a voz do judeu que era a voz privada. Foram as que me interessaram mais.

GN: Você já sabia que ele tinha nascido na Bessarábia?


JR: Ah, sim. Mas depois é que eu fui ver que era uma questão tão importante. A que acaba com ele. Acaba com ele, apesar dele sair vencedor.


GN: Você foi a primeira a dar a notícia de que ele não era brasileiro. O que você acha disso?

JR: Eu fiquei toda feliz, claro, porque fazia parte da minha pesquisa. A irmã dele me conta. Mas isso não muda muita coisa, porque de fato é uma questão de lei, que é uma bobagem o cara ter que ser brasileiro nato. Eu mesma não nasci no Brasil também. Eu não entendo essa lei. Por ele ter nascido na Bessarábia e vindo pra cá não pode ser dono de jornal. Eu nasci em Alexandria, vim pra cá com dois meses, isso significa que eu sou menos brasileira que uma mulher da minha idade que nasceu aqui? Eu não posso ser dona de jornal.

GN: E aquele depoimento da Pinky onde ela fala que gostaria de estar inserida no grupo dos judeus?


JR: É porque na verdade, na religião judaica, para você ser reconhecida enquanto judeu, tem que passar pela linha materna. Entre os judeus se a mãe é judia, o filho também é. Ele é reconhecido, porque a mãe você tem certeza quem é, o pai não. Eu acho isso de uma injustiça atroz. Ela tentou. Mas eu acho que é só um momento da vida dela. Tem uma hora que ela fala que ela se vestia igual àquelas ucranianas. Isso você vê na obra dela. Teve um momento das aquarelas dela que tinha árvore da vida, tinha uma coisa meio cabalística, tinha um símbolo judaico. Mas a Pinky é assim, ela é super aberta.

GN: Ela falou com você só do pai ou falou também um pouco da relação com a mãe?

JR: A gente ficou falando basicamente do Samuel.

GN: Tem uma parte no seu livro em que você fala que a jornalista que entrevistou o Samuel, que ela toca na questão da Danuza, que ela era uma pessoa especial. E ele diz (em MINHA RAZÃO DE VIVER) que é triste quando um casamento acaba porque os filhos também se separam de você. Enfim, isso quer dizer o quê? O grande amor da vida do Samuel foi a Danuza?


JR: A Danuza eu acho que foi. Foi a única mulher com quem ele teve filhos e com quem ele casou de fato. Eu acho que sim.


GN: E aquela história dela ser uma goy ?


JR: Depende de onde você está. Depende de que lugar da comunidade judaica você está. Eu não casei com um judeu, por exemplo, e foi um drama. O meu pai achava que a culpa era dele, que se a minha mãe estivesse viva ela teria dado um jeito e eu não acabaria me perdido nos caminhos não judeus.

GN: E quando você descreve a família Wainer, antes, você já sabia alguma coisa da mãe e do pai dele?

JR: Sabia. Mas descobrir essa identidade judaica do Samuel foi um trabalho mesmo de levantar isso, porque não era uma coisa óbvia. Eu acho que eu digo isso no livro se eu não me engano. Para mim ficou muito claro que tinha alguma coisa. Porque eu justifico. Eu levei um susto quando eu vi. A primeira coisa que ele resolve falar é da identidade judaica dele, através do diálogo com o filho. A primeira coisa que ele faz é isso. E depois corta e ele vai falar da vida dele. “É porque eu sou judeu, eu sou um judeuzinho e não sei o quê”. Mas ele era um cara que não preservava a religião judaica. Ele não liga tanto. Repara que ele casa com uma não-judia e ele é cremado. Não se pode na religião judaica ser cremado. Não se crema o corpo, você volta de onde você veio, da terra. Então, não tinha essa religiosidade. Eu acho que é assim, o judaísmo é uma marca étnica, não é só cultural, não é só religiosa. Ele pertence a essa tribo, mas não necessariamente ia rezar na mesma cartilha. Não ia preservar. Mas quando ele vai para Israel, fica naquele balanço dos judeus e ele se reconhece. Quando ele vai para Nuremberg é o oposto, ele consegue ser o jornalista frio.

GN: Você acha mesmo que em Nuremberg ele consegue ser o jornalista frio?

JR: Eu fiquei muito impressionada pelo relato dele. Porque qualquer pessoa não-judia ia ter alguma reação emocionada. Acho que ele não quis que o judeu aparecesse ali. E se ele estivesse lá ele teria sido morto, porque ele sai da Bessarábia quando começaram os pogroms, no inicio do século XX. Pogroms são aquelas saídas dos judeus da Rússia e eles têm que ir embora. Ele sai por isso, senão ele ainda estaria lá na Bessarábia, se estivesse lá ele ia para o forno direto.

GN: Mas durante o julgamento em Nuremberg tem um jornalista que grita que tudo foi um genocídio e o Wainer ainda se mantém calado, porém indignado.


JR: Indignado. Ele fala do lide, ele pensa no torturador, ele fala como é que vai fazer, mas não tem um discurso emocional.


GN: Você está dizendo que ele podia ter sido um daqueles que se manifestaram no tribunal?

JR: Não, mas ele podia falar. Ele não estava no tribunal e ele podia falar, mas ele não fala. Mesmo depois quando ele está contando isso para o entrevistador, acho que é para o Sérgio (Sérgio de Souza) que ele conta. E ele podia falar: “Poxa, aquilo foi horrível, imagina, eu podia...”. E eu achei estranho. Os relatos dele são todos muito frios, ele matém essa frieza. É a opção dele.

GN: Já em Israel ele se mistura.

JR: Completamente. Aquela que eu gosto muito é a descrição dele daquelas pessoas sem terra, sem nada, sem pátria, os displaced people. Eu acho que ele se via assim.

GN: E foi surpreendente. Foi uma surpresa para ele ver que aquelas pessoas que perderam as famílias estavam lá cantando felizes da vida, porque agora podiam ir para algum lugar.

JR: E elas estavam vivas.

GN: Tem uma parte em que ele fala que vê um rabino velhinho...

JR: É muito legal essa parte. Eu queria mesmo que a Pinky publicasse do jeito que está.

GN: Como é que está?

JR: A transcrição do jeito que é. Porque na verdade ele ia reescrever. O Moacir diz isso, o Moacir Werneck. “Se ele tivesse tido tempo de trabalhar essas memórias e ele tivesse me mostrado, eu teria cortado um monte de coisas”.

GN: E aquela passagem na qual ele conta para os filhos sobre a velha avó Wainer que foi estuprada por 24 inimigos? Quando ele tenta explicar a origem da família Wainer.

JR: Eu adoro isso. Não importa porque é lenda. Era lindo, maravilhoso. E o que eu acho legal é que ele pega a história de Moises como se fosse de um tio dele, de um bisavô dele. Porque é para isso mesmo. Essa história do antigo testamento é isso. É a história do povo judeu, então, é para se apropriar mesmo e ponto. Porque nós estivemos no deserto, nós estivemos lá, nossa alma esteve lá.


GN: E aquela coisa dele estar inserido no grupo dos judeus e depois não estar? Na fala dele a gente percebe que ele se inclui e se exclui o tempo todo.

JR: Isso é o que é interessante nele. Como é o ser humano, na verdade. Uma hora você quer ficar de azul, outro dia você quer rosa... Isso é que é interessante.

GN: E essa amizade dele com o Getúlio Vargas?

JR: Eu não sei se tinha mesmo amizade naquela história. O Samuel tinha o Lacerda como amigão, ela gostava muito dele. A minha análise é que ele, eu digo isso no livro, perdoa o Lacerda, ele compreende o Lacerda, mas ele briga. O Chatô é o cara com quem ele passa o tempo todo brigando e é o cara que, por razões variadas, banca tudo para ele se transformar em Samuel Wainer. Ele consegue a entrevista com Getúlio, ele corre atrás, claro que é o valor dele, mas o veículo é o Chatô. E depois vem o Vargas. Ele tem a briga com o Vargas na época do DIP e depois ficam os melhores amigos

GN: O que você acha disso?

JR: Eu acho que é a vida. É o fluxo da vida. Porque vai depender do que é que você quer, do que é que está acontecendo naquela hora. É um jogo de interesse o tempo todo. Eu acho que o Chatô e o Vargas são jogos de interesse, com o Lacerda eu acho que não. Tem alguma coisa ali.

GN: Ressentimento?

JR: Ou ressentimento, ou amor. Tem um sentimento assim.


GN: O Lacerda freqüentava a casa do Wainer.

JR: Freqüentava. A mãe do Samuel ficava triste, ficava com medo do Lacerda. Ela não entendia que o Lacerda tivesse feito isso. Eles foram próximos numa época em que mesmo os nossos desafetos, a gente gosta deles, porque eles lembram a gente de um tempo em que a gente achava que era mais feliz. Ou quando a gente está na adolescência, quando a gente está na infância e a gente acha que esse é o melhor período da vida. Então, fica uma memória afetiva até daquele amigo da escola com quem a gente brigava, quando a gente revê hoje. Fica uma coisa: “meu amiguinho, a gente viveu aquilo junto”. É uma testemunha de uma época que foi feliz. E agora, o Chatô e o Vargas eram interesses.

GN: E quanto ao relacionamento com o Vargas?

JR: Já imaginou você ser amigo do Presidente da República? Não é fascinante? O Wainer foi o cara que estava ali, que segurou, que bancou a campanha sozinho. Ele fez sozinho a campanha, ninguém acreditava. O Vargas ganha, volta nos braços do povo e volta eleito pelo voto direto. Então imagina? Você ser o cara, ser “O Cara”. Então, você sabe de tudo, você tem os bastidores todos, mas claro que o Samuel foi usado pelo Getúlio. Não tenho nenhuma ingenuidade e, provavelmente, nem ele achava que era pelos olhos azuis dele que o Getúlio... Mas ele se aproveitou também. Um se aproveitou do outro, era um jogo de interesse.

GN: E no caso do Última Hora. A história não é bem aquela de que o Getúlio deu dinheiro para o Wainer fazer o jornal.

JR: Não. Mas ele era amigo do Presidente, imagina? Que nem hoje em dia, a mesma coisa. Você vai: “Eu sou o Samuel Wainer, o Getúlio quer que eu faça um jornal”. O Banco do Brasil libera o dinheiro. Passa com a notinha no banco. “Ah! O dinheiro era do Banco do Brasil!”.

GN: Mas ele saldou essa dívida, não?

JR: Não sei. Mas, enfim, essa é a questão. Essa é a “República das Bananas”, é assim que funciona. Essa história é muita enrolada.

GN: Mas depois vem a história com o Lacerda, vem o Chatô, o Roberto Marinho. Todos dizendo que ele foi favorecido. E ele vai para o fogo sozinho.

JR: Por quê? Porque ele não fazia parte do grupo. Ele diz isso. “Eu sentava à mesa com eles, mas eu não fazia parte do grupo”. Que era um clube muito maior, de mais tempo. Ele conseguiu ser um dono de jornal, mas nunca o aceitaram de fato. E o jornal era muito bom.

GN: E essa coisa do Joel Silveira dizer que o Wainer escreveu a biografia que ele queria e não o que aconteceu de verdade?

JR: Que nem o Rivadávia de Souza, que é outro livro chamado Botando os Pingos nos Is, onde ele diz que não é nada disso, que a entrevista com o Vargas não foi assim, que o Samuel inventou. É uma questão da verdade, da verdade histórica. O que é, o que não é. Eu preferi não entrar nessa questão filosófica, ou de discurso, porque o que interessava era o que ele achava, o que é que ele escreveu. Eu fui pegar o Rivadávia, então digo o outro lado. Regra básica do jornalismo e da pesquisa. Você ouve o que o outro tem para dizer também, coloca lá, mas eu segui aqui, porque era o lado dele que me interessava. Ser a verdade, ser positivista ou não, não era o mais importante. É como ele viu isso. Se todos nós vamos cobrir um acontecimento, na hora de escrever o texto eles serão diferentes e a gente viu a mesma coisa. A gente vai contar de forma diferente, porque passa pela subjetividade. Então, é complicada essa verdade. “Ah! Aconteceu assim”. Aconteceu assim para você. Não sei se ele manipulou. Isso eu não sei.

GN: Na história dele com a família. Se ele tinha um pai ausente, em quem o Samuel se espelhou para ser o oposto? Você conseguiu captar uma figura humana ali?

JR: Não, não. Mas eu sei que ele era uma mãe judia.. Porque foi ele quem cuidou dos filhos, porque a Danuza largou e foi viver com o Antônio Maria. E ele pegou os três filhos e foi viver com os três filhos. O Dines diz isso: “O Samuel era uma mãe judia”.

GN: Parece que desde criança, naquela história do Bar Mitzvá, o Wainer começou a aprender a lidar com os fracassos, com essas coisas que uma hora deixam de dar certo, como o jornal que ele fundou e que acabou trabalhando como funcionário depois.

JR: Na Folha de São Paulo. Isso para mim é um exemplo. Ele parecia ser um cara muito charmoso, muito cheio de charme e poderoso. Mas eu não sei dizer, porque eu não conheci, mas eu acho que ele foi um cara acima dessas coisas todas. Ele tinha essa humildade de saber recomeçar, o tempo todo na vida dele isso acontecia. O tempo todo. Eu me lembro da dona Rosa, minha ex-sogra, contar que, às vezes, não tinha salário para o seu Octávio. Não tinha salário para eles todos do jornal. “Hoje não tem, não faz mal, vamos fazer desse jeito. Amanhã a gente faz de outro”.

GN: O que você achou de ter tido esse trabalho publicado?

JR: É bacana você ter editoras universitárias, porque só elas podem publicar esse tipo de coisa. Não estão visando tanto o lucro como as editoras comerciais que precisam vender para se manterem.

Sobre Joëlle Rouchou:

Jornalista e professora da Escola de Jornalismo da UniverCidade desde 1987, Joëlle trabalhou no Jornal do Brasil (1978-1985) e na Veja (1985-1987). Foi assessora de imprensa da Casa de Rui Barbosa (1988-2000), passou a dedicar-se à pesquisa e obteve seu doutorado em Comunicação e Cultura com a tese "Noites de verão com cheiro de jasmim: memórias de judeus do Egito no Rio de Janeiro (1956-1957)", na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Atualmente é pesquisadora do setor de História da Casa de Rui Barbosa.

Bibliografia:

ROUCHOU, Joëlle. “Samuel. Duas Vozes de Wainer”. 2 ed. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora, 2004.
WAINER, Samuel. “Minha Razão de Viver – memórias de um repórter”. 5 ed. Rio de Janeiro: Record, 1987.
RODRIGUES, Nelson. A menina sem estrela. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
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