domingo, dezembro 03, 2006

Um ano depois...
Em novembro de 2005, após uma breve pesquisa sobre o jornalista Samuel Wainer, escrevi o texto que segue abaixo. Achei que seria interessante postá-lo novamente, pois o classifico como sendo uma das histórias mais curiosas que já tomei conhecimento.
Para aqueles que também quiserem conferir a entrevista com a jornalista Joëlle Rouchou, basta acessar a pasta deste blog referente ao mês de março. Joëlle me contou um pouco a respeito do livro que escreveu sobre Wainer e algumas outras coisas.
Então, desde já, gostaria de dizer que mais uma vez será um prazer compartilhar com todos o material coletado para a realização deste trabalho.
Um abraço,




50 anos da absolvição de Samuel Wainer
por Geórgia Detogne


" O jornalista não é um criador de fatos, ele é um transmissor
e precisa saber ver. E saber ver é só vivendo."

S.Wainer


No dia 23 de novembro de 1955, o jornalista Samuel Wainer vivia o que para ele foi um dos dias mais emocionantes de sua vida. Em outubro, fora condenado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro a um ano de prisão pelo crime de falsidade ideológica. No mês seguinte, Wainer estava livre e deixava o único quarto para presos especiais que existia no Hospital da Polícia Militar, na rua Frei Caneca.

A morte de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, serviu para que seus inimigos finalmente pudessem se concentrar em uma única missão: destruir Samuel Wainer. Era um ótimo momento para acabar com o Última Hora, jornal criado por ele, que se diferenciava dos demais periódicos por ser o único a apoiar o governo da época e, que além de se dirigir àqueles que faziam parte da elite, também estava intensamente voltado para as camadas populares. Por meio dele, os leitores acompanhavam o que acontecia na Era Vargas de 1951 a 1954. No Palácio do Catete, o jornalista Luis Costa estava atento a tudo que se passava e as informações colhidas eram publicadas na coluna intitulada “O Dia do Presidente”, que existiu na página 3, desde o surgimento do jornal até o suicídio de Getúlio.

Assis Chateaubriand (dono dos Diários Associados e ex-patrão de Samuel Wainer) e Carlos Lacerda (dono da Tribuna da Imprensa) foram os principais acusadores na Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada inicialmente para investigar a origem do dinheiro utilizado na montagem do Última Hora e que teve na questão da nacionalidade de Wainer um de seus pontos mais importantes. Chatô era o patrão abandonado pelo grande repórter que deu aos seus dois jornais, Diário da Noite e O Jornal, uma vendagem de 180.000 exemplares cada, com a matéria que anunciava o retorno de Vargas ao poder.

Tudo começou quando Samuel Wainer fora mandado ao Rio Grande do Sul, em fevereiro de 1950, para fazer uma reportagem sobre a plantação de trigo na região, quando viu que sobrevoava a fazenda onde se encontrava Getúlio Vargas, imediatamente deu ordens ao piloto para aterrissar. O resultado de tal ousadia foi a entrevista que mais tarde ficaria famosa por noticiar em primeira mão o retorno do ex- ditador, que desta vez estava disposto a voltar ao comando do país como líder das massas. Neste instante começava a ser escrita a história sobre um jornalista que sonhava em ser dono de jornal e de um presidente do Brasil que o ajudou a realizar esse sonho.

Invejas, vaidades, ciúmes, ódios e outros tipos de sentimentos similares também começavam a aparecer. Lacerda era um ex-amigo que tinha se rebelado, que deixava dona Dora, mãe de Samuel, apavorada e aos prantos por não entender o que levava o “rapaz bonzinho” que freqüentava a casa dos Wainer, a odiar tanto seu filho. Além dos desafetos que nutriam pelo fundador do Última Hora, Chateaubriand e Carlos Lacerda também eram ferozes opositores de Vargas.

Na autobiografia, que leva o título de “Minha Razão de Viver – memórias de um repórter”, publicada pela primeira vez em 1987, Wainer se descreve como sendo “um judeu do Bom Retiro, sentado à mesa com os donos de jornais”. Esses mesmos donos antigetulistas desejavam vê-lo longe das salas de reunião, dos outros ambientes sociais e, principalmente, fora dos meios de comunicação. O plano era destruir o Última Hora sob o pretexto de que este era uma ameaça para imprensa brasileira, logo, destruir seu proprietário, porque Samuel e seu jornal eram um só. A segunda tarefa era a de aniquilar Vargas.


Entretanto, por ironia do destino, o presidente tratou de dar fim à sua vida. E o velho clichê foi consumado: o feitiço virou-se contra o feiticeiro. A idéia de uma CPI partiu do próprio jornalista e teve o apoio de Getúlio. Ambos acreditavam que por meio dessa comissão a trajetória do Última Hora poderia ser investigada, dando fim às denúncias de favorecimento ilícito advindos do Banco do Brasil.

Wainer contava com os votos da maioria governista do Legislativo para derrotar aqueles que representavam a União Democrática Nacional (UDN), ligados a Lacerda. Porém esta maioria o acabou traindo e demonstrando qual era o grau de prestígio que Vargas tinha naquele momento. Além do mais, o jornalista dispensou advogados na primeira fase das investigações e como ele mesmo conta, talvez se não tivesse feito isso “escaparia dos dissabores provocados por escorregões decorrentes da falta de experiência jurídica”. Em outra etapa, no ano de 1955, evitou o erro que cometera no passado e foi defendido por um grupo de profissionais devidamente habilitados, dentre eles estava o jurista Evandro Lins e Silva (o mesmo que defendeu mais de 2.000 presos políticos no Estado Novo e redigiu o pedido de impeachment de Fernando Collor). Todos, incluindo Wainer, tentavam provar que a matéria publicada no dia 12 de julho de 1953, pelo Diário de São Paulo, um dos jornais de Chateaubriand, era falsa.
Os Diários Associados e os demais inimigos do Última Hora estavam dispostos a confirmar de todas as formas que o “amigo do Homem” (como era também chamado Samuel Wainer devido à sua amizade com Vargas) não havia nascido no Brasil. E o que isso tem demais? Acontece que na década 50 e ainda hoje, de acordo com a Constituição Federal, somente um brasileiro nato ou naturalizado há mais de 10 anos pode ser dono de empresa jornalística. E por isso, Chatô e Lacerda, que não encontravam mais argumentos para colocar Samuel Wainer na cadeia sob a acusação de favorecimento oficial, não pouparam esforços para encontrar dados que comprovassem que ele havia nascido numa aldeia chamada Edenitz, na Bessarábia. Do outro lado, se defendendo da maneira que podia, estava o réu, afirmando que nascera no pacato bairro do Bom Retiro, em São Paulo.
Os algozes de Wainer se apoiavam num documento encontrado nos arquivos do Ministério da Educação, cujo conteúdo informava que ele chegara ao Brasil com 2 anos de idade. Em cada rebatida, Carlos Lacerda e Assis Chateaubriand não se intimidavam, pelo contrário, pareciam cada vez mais fortes para alcançar o objeto que tinham em comum. Em suas investidas mandaram repórteres ao bairro paulistano e tentaram achar papéis que comprovassem o embarque da família Wainer no porto de Gênova, com destino para América do Sul.
Ainda em sua defesa, Wainer teve amigos que se ofereceram para depor, alegando que haviam assistido sua circuncisão (que acontece no 7º dia de vida), o que provaria que ele de fato nascera aqui. Segundo Nelson Rodrigues, que escrevia “A vida como ela é...”. - uma das colunas do Última Hora -, “pode-se pendurar um sujeito numa forca, ou crivá-lo de balas, ou beber-lhe o sangue como groselha. Mas ninguém tem o direito de fazer o que a Comissão Parlamentar de Inquérito fez com Samuel Wainer”.

Realmente os passos dos inimigos caminhavam pouco macios sobre ele que, mesmo antes da morte de Getúlio, lutava praticamente sozinho. Porém, como mostra a história, em momento algum pensou em se entregar ao “Corvo” (nome com o qual apelidou Carlos Lacerda) e aos outros tantos que queriam vê-lo derrotado. Mesmo com todos os esforços para provar sua inocência, em outubro de 1955, Wainer estava sendo condenado pelo crime de falsidade ideológica, já que a dívida com o Banco do Brasil havia sido quitada e nada quanto a esse assunto ficou provado. Na cela do Regimento Caetano Farias, para onde fora mandado, se encontravam presos bastante interessantes: “dois advogados condenados por chantagem, um químico industrial que tinha matado a esposa adúltera, um médico mineiro de origem árabe que assassinou a mulher por suspeitar que está teria tentado prostituir a filha e um tenente do Exército preso por estelionato”, todos aparentemente simpáticos a Lacerda, como narra na autobiografia.


Apesar de estar extremamente mal acompanhado, os motivos que o levaram a solicitar uma transferência foram os rumores de um golpe articulado pelos militares “lacerdistas”, contra o então mais novo presidente da República, Juscelino Kubitschek. Graças à ajuda do médico Noel Nutels, que participou do grupo da revista Diretrizes, conseguiram transferi-lo para o Hospital da Polícia Militar.
Há exatos 50 anos, Samuel Wainer e sua esposa Danuza Leão acompanhavam por telefone as informações sobre o julgamento, no Supremo Tribunal Federal, do recurso que pedia sua absolvição. Finalmente, neste 23 de novembro de 1955, Wainer fora absolvido por unanimidade, pois o STF não se interessava em saber onde o dono de um dos jornais mais importantes do Brasil havia nascido.

Entretanto, não seria numa CPI e muito menos em páginas de jornais que desejavam ver o nome de Samuel Wainer na lama, que a informação quanto ao seu verdadeiro local de nascimento encontraria a seriedade que esse assunto passou a merecer. Na Escola de Comunicação da UFRJ (ECO/UFRJ), em 1996, uma dissertação de mestrado com o título de “Samuel. Duas vozes de Wainer” estava sendo defendida pela jornalista Joëlle Rouchou. Sob orientação da professora Heloísa Buarque de Hollanda, durante todo o trabalho, Joëlle se dedicou a compreender a identidade judaica e jornalística de Wainer. Para isso desenvolveu uma extensa pesquisa em busca de informações pouco discutidas e algumas até inéditas, tanto no conteúdo como na abordagem. Além das 1.300 páginas resultantes das transcrições das 53 fitas deixadas por Samuel Wainer - as mesmas que também serviram de material para Augusto Nunes em “Minha Razão de Viver”, - a jornalista que trabalhou no Jornal do Brasil (1978-1985) e na revista Veja (1985-1987), entrevistou parentes, amigos e ex-colaboradores. A tese foi transformada em livro em 2004, pela UniverCidade Editora, e é a primeira publicação a divulgar que Wainer realmente era bessarabiano. Nesta entrevista Rouchou fala um pouco sobre o livro e das razões que a levaram a escrever sobre o assunto.