domingo, maio 28, 2006






1º de julho de 2004.
Mario e Ana



NO AGORA


Faz 11 dias que não se vêem e apesar de todos os motivos que ela deu para que ele nunca mais a procurasse, ele mais uma vez investiu suas últimas forças nesse caso esquisito. Faz 11 dias que não se vêem porque ele teve que viajar como sempre faz a cada final de semestre. E agora, no agora, ele sente uma enorme vontade de dar na cara da própria mãe. Freud talvez traduziria isso como sendo uma neurose compreensivél, todavia, para ele não passa da inocente necessidade de esbravejar o chilique que sente precisar dar na frente da mulher que o pariu num dia de fevereiro de 77, principalmente, quando ela se mostra nada apavorada, fugindo a todos os padrões de histeria, o irritando. Não é difícil tirá-lo do sério. Qualquer coisa o aborrece. O fato é relevante, pois existe sempre uma boa explicação para que ele mude o temperamento e tenha vontade de arrancar braços e outros membros das pessoas que como ele mesmo diz, o “atrapalham”. Provavelmente seja algo parecido com a tal bipolaridade emocional, ora um anjo querubim, outrora bicho. Bicho que não quer matar em hipótese alguma. Não pensa em assassinato, pensa em fazer sofrer. Não suporta muito a mãe. E estando há 11 dias sem ver e sentir e ter certeza de que Ana vai bem, fica mais estranho ainda. Mais desligado das coisas do real, cumprindo tarefas no automático, lendo livros no automático, ouvindo música no automático, odiando aqueles que precisam do seu ódio para viver no automático. Jamais o dê ordens. Um sorriso imediatamente se transforma em ruga na testa. Não sinta pena, porque é somente disso que nasce a tão evitada vontade de matar, de abrir animais para ver como são por dentro, de subir no alto e imaginar como é se jogar de lá. Então lembra de episódios passados, como as férias em Abracadabra, o beijo em São Paulo, da trepada ao som da Marisa Monte e dos filmes que adora. Desce do alto, não abre porra nenhuma, não mata ninguém e deseja que o ócio faça mal para o filho da puta que ousou sentir pena dele. E se for verdade mesmo, se os 11 dias sem vê-la são mesmo verdadeiros, ele não deve estar cabendo em si de saudade, com aureola de menino bom. Ela é como música dos Beatles, como “Here comes the sun” tirando alguma coisa. Ela teve todas as chances para ser “Two of us”, mas não se sabe direito o porquê, ela não foi. Onze dias sem Ana. 264 horas sem Ana. Isso é bem mais que os segundos que consegue ficar prendendo a respiração. E ele nem tem paciência para prender a respiração. Sem ela já há mais de 5 pores-do-sol. Ana não liga para o pôr-do-sol. Não se importa. Ana gosta da lua. Ele gosta do sol. Ana, lua. Ele, sol. Por isso ela não é “Two of us”. Não por não gostar daquilo que ele gosta, mas por serem tão diferentes. Ele aprendeu a gostar do O Rappa, mas ela não se interessou pelo Lennon , nem pelo Paul que é mais risonho, nem mesmo pela possível viagem para Liverpool em dezembro do ano passado. Nunca teve The Trip. Porque Ana preferiu viajar com os amigos. Ana foi acampar com os amigos nas noites de algum meio-do-mato perto do litoral. Ana. Ana viu a lua. A maior droga disso é que Ana viu a lua sem ele e, fodendo com a situação de vez, Ana viu a lua sem ele e estava feliz. O namoro babaca de mentira acabou ao som dos soluços dele. Era hora de ser bicho, morder os lábios da mulher que com palavras articuladas o mandava ir pastar, porque preferia os amigos àquele idiota. Mas ele não virou bicho e quando não vira bicho chora. Chora só por motivos que realmente merecem choro. E chorou, um instante de raiva, de medo, de ódio, de falta de saco para aturar algo tão constrangedor. Nem Eleanor Rigby suportaria. E essa não foi a primeira e nem será a última vez que deixou de sofrer sua tão característica mutação. Ana o fez chorar mais outras vezes. Ana que viu a lua, que está longe faz 11 dias, sai e entra do coração dele quase que toda hora. No agora, que anda confuso, porém calmo, ele se desliga e quando volta, volta nela. E quando volta, volta sozinho.

No início desse relacionamento o grande problema era o descaso. Ao pé da letra: desprezo; desatenção; pouco-caso; falta de cuidado; descuido; desleixo, segundo o dicionário. Ausência total de amor, segundo ele. E nessa história que se dane ele, pois assim na maior parte das vezes prefere ela. Ela que escuta o Marcelo D2 e tem o Falcão como conselheiro espiritual para tomar importantes decisões. Ela que adora o Bob Marley, porque ele era maluco e fumava maconha. Ela que adora comer frango grelhado e couve refogada. Ela que lê pouco, mas que tem boa vontade para um dia quem sabe ler livros “grossos” do princípio ao fim. Ela que esnobou o Colégio de Artes de Laranjeiras. Ela que tem um bom motivo para ter esnobado o (a) CAL. Ela que nunca ouviu falar em Tracy Chapmam e muito menos do Fito Paz, mas que por bondade divina não teve como fugir do Carlos Santana. Ela que não ronca enquanto dorme. Ela que tem uma boca linda de morrer e parece não saber disso. Ela e aquele jeitinho só dela. Ele, pensando, tenta compreender porque foi mesmo que as coisas aconteceram dessa maneira. Já que se conheceram sem querer, em pouco mais de uma semana já se viram nus um de frente para o outro, que começaram um namoro que durou poucos dias que podem ser contados nos 20 dedos dele e em 10 dos dela, com acompanhamento de bombinha antibiótica para combater os infinitos males respiratórios dele, junto veio a família dela; que passados quatro meses Ana foi a procura dele, voltaram; muitos beijos na boca, trepadas, semi-trepadas e mais um fim; até que voltaram em onda de des-compromisso total. Ele, não sabendo se ainda gostava dela. Ana, diferente.



REGRA NÚMERO UM DESTE CAPÍTULO



Sempre peça informações quando estiver perdido, desorientado, sem saber por qual caminho seguir.
Indiretamente um dos amores da sua vida pode vir com a resposta.



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Exato. Dia quente, sol, ele perdido. “Por favor, para onde fica...?” Finalmente alguém para ajudar esse pobre ser que não conhece o Rio de Janeiro de cabo a rabo. A amiga dela deu as coordenadas, foi gentil e o acompanhou, porque naquela hora, naquele exato, exato instante, estavam os dois querendo ir para o mesmo lugar. E chegando lá, no lugar, veio Ana saída de um ônibus na sua direção. Ana estava acompanhada. E acompanhados sentaram os dois e trocaram as primeiras impressões e curiosidades que jamais revelariam a um desconhecido. Por ele, a beijaria imediatamente. Ana não era igual, parecia ser do bem, porém algo o dizia que o mal estava naquela mulher e nada melhor que misturar as duas coisas num corpo tão bonito como aquele. Não é um corpo de parar multidões pela rua, é um corpo que se observado com atenção, dá sinal de que possui segredos. Ele sendo o curioso que é, quis saber o que de tão misterioso continha ali. Ali, naquela armadura de carne e osso que não falava muito gestualmente, que precisava, ele sentiu isso, ser lapidado e aberto aos poucos, coisa que sua impaciência não permitiria, mas que mesmo assim resolveu encarar. O que será que Jung diria sobre isso? Para a puta que pariu com essa história de “Sincronicidade”. Ana era o perfeito acaso, a perfeita coincidência, a perfeita morte de um antigo amor. Ana matou um pouco outro amor que ainda existe e nunca um pseudoassassinato fez tão bem à alguém. E neste caso Jung entornaria da boca sabiamente que "o homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera. Elas se mudam para a casa vizinha e poderão atear o fogo que atingirá sua casa sem que ele perceba. Se abandonarmos, deixarmos de lado e, de algum modo esquecermo-nos excessivamente de algo, corremos o risco de vê-lo reaparecer com uma violência redobrada”. Por isso, mais uma vez, ele deu sua cara à tapa. E Ana, bateu.

Doses cavalares de experiências o transformaram no que é hoje. Um futuro jornalista voyeur, praticante de sexo seguro; contra, porém também praticante da traição; fã do Neil Young, ex-Buffalo Springfield, por ele provavelmente ter sido um dos poucos canadenses que fizeram duas coisas importantíssimas na vida: tocar em Woodstock e, como conta alguns, namorar a Joni Micthel. Mario Odetta é mais ou menos isso. Calmo, muitas vezes nervoso. Coisa de quem convive com futuros publicitários, marqueteiros político e advogados. Para Mario, nenhum deles presta. É claro que tem uma escala e nela os marqueteiros são os piores, porque nem todo publicitário quer te vender um safado analfabeto que passa parte da vida prometendo boas ações e outra parte não cumprindo com as promessas. Publicitários até alegram a vida, afinal foram eles que criaram aquela propaganda da Parmalat. Lembra? Tudo bem que no fim das contas quem acabou “tomando” foram os produtores de leite e alguns muitos empregados pais de família. Já as advogados, pobres advogados, deles o que sobra é pena. São advogados aqueles que na hora da inscrição do vestibular não tinham idéia de onde marcar a porcaria do X (xis). Todo mundo conhece o tal conto de que quem não sabe o que fazer da vida vira advogado. Mario se forma daqui a 2, talvez 2 anos e meio, mas já sabe que ser jornalista hoje em qualquer lugar do mundo, principalmente no Brasil, é super neurótico. Ensinam um monte de coisas estúpidas na faculdade, outras totalmente inúteis e ainda tem aquelas que quando são postas em prática levam à perda do emprego. Como por exemplo ter imparcialidade, ética e verdade, dentro de um veículo que exige uma matéria sobre alimentos saudáveis e tem como maiores anunciantes a Coca-Cola e o Mc Donald’s. Mas Mario não pretende se desesperar antes do tempo, talvez entre de cabeça no sistema, se case, viaje nos finais de semana com a família, volte sempre para casa no domingo à tarde, enfrentando engarrafamentos porque segunda-feira começa o trabalho que vai até a sexta; e quem sabe no próximo fim de semana... dê para viajar de novo... com a família... voltar para a casa no domingo à tarde... num engarrafamento cu... porque segunda-feira começa o trabalho que vai até sexta e...
Aninha... linda atriz de teatro que fez a peça do Pato.
Ana faz alguma coisa que ele não entende. Ela faz teatro no Humaitá. Ela fez a peça do Pato e Mário foi ver. Tirando isso ela faz coisas que precisam de calculadora. Mario sabe que ela gosta da parte de Mídia. Não é pouco caso. Ele só não se propôs muito a entender o que a atual mulher dos seus sonhos faz, porque em tudo que era anotação dela tinha números e mais números e diferentes sinais matemáticos e palavrinhas curtas em inglês que o fez lembrar dos publicitários. Todavia, sabe que Ana se sente feliz trabalhando com Mídia. Sabe porque ela sempre sorri. E fica mais feliz quando se esforça e consegue bons resultados. E esse é um dos segredos que ele descobriu. Gosta da determinação que vem dela. Gosta de nunca vê-la desistir. É bem provável que ela termine a faculdade primeiro que ele, já que Odetta atrasou seu curso por cair naquela crise de universitário. “Por que estou aqui? Por que eu faço isso? Será que eu sou mal? E o mundo é isso aí? O que vai ser de mim?” E lá foi ele, jogou tudo para um canto e resolveu ser militar. Passados seis meses voltou. Algo lhe diz que deve ser um miserável razoavelmente esclarecido. E entre as coisas de Ana, entre as folhas de números e outdoors, busdoors, briefing, etc, encontrou nomes de antigas amizades, paixões e porque não amores dela. Leu, poucas letras, fechou. Foi como se o Neil Young tivesse encontrado o nome do David Crosby nas coisas da Joni. Como consolo restava a certeza de que os cabelos dela, curtos, era ele quem puxava; a boca, “bocão”, era ele quem beijava; o corpo, relicário, era a ele quem guardava; e talvez em alguma hora do dia, era nele em quem ela pensava e desejava mesmo que pouco, estar próxima.
Nada de histeria. Ana desde o dia que nasceu estava predestinada a mover poucas montanhas e a orientar os amantes desorientados desse planeta. Depois dela Mario passou a ser menos egoísta, mais compreensivo, passou a usar das qualidades humanas sem sentir tanta dor. Demorou e até hoje não sabe muito bem escutá-la, não sabe demonstrar o quanto ela o faz ser mais alegre e preocupado. Nunca, apesar de tanto tempo, o relacionamento dos dois atingiu o nível tão esperado por ele. Ana nunca abriu mão de feri-lo com as palavras, talvez fizesse isso sem perceber, falava de outras pessoas que ela as colocava entre eles, falava em ir a lugares e estar feliz pela ausência dele. Como nos dias que viu a lua, nos dias em que ele procurava se entreter com a Tv, com os livros e jornais, com as “Vejas” antigas que guarda no armário, com a rádio que só toca música brasileira, com o computador e com o resto de Mate Leão na porta da geladeira. Até a hora que resolveu mandá-la ir à merda, que repensou sobre essa decisão, mandando seu pensamento fazer com que ela retornasse da merda e voltasse para ele. Ficou nisso à tarde toda. Percebeu então que o melhor lugar para ela em relação a ele e a meda era o meio do caminho. Ana nem é parecida com a Sandra Bullock para merecer tanta consideração, mas o que Mario não fazia idéia era que as forças de atração entre suas porções de matéria ocupavam o mesmo espaço ao mesmo tempo. E qual será o espaço de uma força?
(Continua)