quarta-feira, março 22, 2006


50 anos da absolvição de Samuel Wainer
por Geórgia Detogne


" O jornalista não é um criador de fatos, ele é um transmissor
e precisa saber ver. E saber ver é só vivendo."
Samuel Wainer

"Isso. Essas coisas que acontecem que só Deus explica. Porque eu acredito nisso. É o que eu digo para os meus alunos, um furo de reportagem acontece para quem corre atrás. Se você abre canais para que as coisas aconteçam, elas acontecem. Se você ficar em casa esperando Samuel Wainer bater na sua porta, isso não vai acontecer. É isso mesmo. A sorte vem para quem corre atrás."
Joelle Rouchou


No dia 23 de novembro de 1955, o jornalista Samuel Wainer vivia o que para ele foi um dos dias mais emocionantes de sua vida. Em outubro, fora condenado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro a um ano de prisão pelo crime de falsidade ideológica. No mês seguinte, Wainer estava livre e deixava o único quarto para presos especiais que existia no Hospital da Polícia Militar, na rua Frei Caneca.

A morte de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, serviu para que seus inimigos finalmente pudessem se concentrar em uma única missão: destruir Samuel Wainer. Era um ótimo momento para acabar com o Última Hora, jornal criado por ele, que se diferenciava dos demais periódicos por ser o único a apoiar o governo da época e, que além de se dirigir àqueles que faziam parte da elite, também estava intensamente voltado para as camadas populares. Por meio dele, os leitores acompanhavam o que acontecia na Era Vargas de 1951 a 1954. No Palácio do Catete, o jornalista Luis Costa estava atento a tudo que se passava e as informações colhidas eram publicadas na coluna intitulada “O Dia do Presidente”, que existiu na página 3, desde o surgimento do jornal até o suicídio de Getúlio.

Assis Chateaubriand (dono dos Diários Associados e ex-patrão de Samuel Wainer) e Carlos Lacerda (dono da Tribuna da Imprensa) foram os principais acusadores na Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada inicialmente para investigar a origem do dinheiro utilizado na montagem do Última Hora e que teve na questão da nacionalidade de Wainer um de seus pontos mais importantes. Chatô era o patrão abandonado pelo grande repórter que deu aos seus dois jornais, Diário da Noite e O Jornal, uma vendagem de 180.000 exemplares cada, com a matéria que anunciava o retorno de Vargas ao poder.

Tudo começou quando Samuel Wainer fora mandado ao Rio Grande do Sul, em fevereiro de 1950, para fazer uma reportagem sobre a plantação de trigo na região, quando viu que sobrevoava a fazenda onde se encontrava Getúlio Vargas, imediatamente deu ordens ao piloto para aterrissar. O resultado de tal ousadia foi a entrevista que mais tarde ficaria famosa por noticiar em primeira mão o retorno do ex- ditador, que desta vez estava disposto a voltar ao comando do país como líder das massas. Neste instante começava a ser escrita a história sobre um jornalista que sonhava em ser dono de jornal e de um presidente do Brasil que o ajudou a realizar esse sonho.

Invejas, vaidades, ciúmes, ódios e outros tipos de sentimentos similares também começavam a aparecer. Lacerda era um ex-amigo que tinha se rebelado, que deixava dona Dora, mãe de Samuel, apavorada e aos prantos por não entender o que levava o “rapaz bonzinho” que freqüentava a casa dos Wainer, a odiar tanto seu filho. Além dos desafetos que nutriam pelo fundador do Última Hora, Chateaubriand e Carlos Lacerda também eram ferozes opositores de Vargas.

Na autobiografia, que leva o título de “Minha Razão de Viver – memórias de um repórter”, publicada pela primeira vez em 1987, Wainer se descreve como sendo “um judeu do Bom Retiro, sentado à mesa com os donos de jornais”. Esses mesmos donos antigetulistas desejavam vê-lo longe das salas de reunião, dos outros ambientes sociais e, principalmente, fora dos meios de comunicação. O plano era destruir o Última Hora sob o pretexto de que este era uma ameaça para imprensa brasileira, logo, destruir seu proprietário, porque Samuel e seu jornal eram um só. A segunda tarefa era a de aniquilar Vargas.

Entretanto, por ironia do destino, o presidente tratou de dar fim à sua vida. E o velho clichê foi consumado: o feitiço virou-se contra o feiticeiro. A idéia de uma CPI partiu do próprio jornalista e teve o apoio de Getúlio. Ambos acreditavam que por meio dessa comissão a trajetória do Última Hora poderia ser investigada, dando fim às denúncias de favorecimento ilícito advindos do Banco do Brasil.

Wainer contava com os votos da maioria governista do Legislativo para derrotar aqueles que representavam a União Democrática Nacional (UDN), ligados a Lacerda. Porém esta maioria o acabou traindo e demonstrando qual era o grau de prestígio que Vargas tinha naquele momento. Além do mais, o jornalista dispensou advogados na primeira fase das investigações e como ele mesmo conta, talvez se não tivesse feito isso “escaparia dos dissabores provocados por escorregões decorrentes da falta de experiência jurídica”. Em outra etapa, no ano de 1955, evitou o erro que cometera no passado e foi defendido por um grupo de profissionais devidamente habilitados, dentre eles estava o jurista Evandro Lins e Silva (o mesmo que defendeu mais de 2.000 presos políticos no Estado Novo e redigiu o pedido de impeachment de Fernando Collor). Todos, incluindo Wainer, tentavam provar que a matéria publicada no dia 12 de julho de 1953, pelo Diário de São Paulo, um dos jornais de Chateaubriand, era falsa.

Os Diários Associados e os demais inimigos do Última Hora estavam dispostos a confirmar de todas as formas que o “amigo do Homem” (como era também chamado Samuel Wainer devido à sua amizade com Vargas) não havia nascido no Brasil. E o que isso tem demais? Acontece que na década 50 e ainda hoje, de acordo com a Constituição Federal, somente um brasileiro nato ou naturalizado há mais de 10 anos pode ser dono de empresa jornalística. E por isso, Chatô e Lacerda, que não encontravam mais argumentos para colocar Samuel Wainer na cadeia sob a acusação de favorecimento oficial, não pouparam esforços para encontrar dados que comprovassem que ele havia nascido numa aldeia chamada Edenitz, na Bessarábia. Do outro lado, se defendendo da maneira que podia, estava o réu, afirmando que nascera no pacato bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

Os algozes de Wainer se apoiavam num documento encontrado nos arquivos do Ministério da Educação, cujo conteúdo informava que ele chegara ao Brasil com 2 anos de idade. Em cada rebatida, Carlos Lacerda e Assis Chateaubriand não se intimidavam, pelo contrário, pareciam cada vez mais fortes para alcançar o objeto que tinham em comum. Em suas investidas mandaram repórteres ao bairro paulistano e tentaram achar papéis que comprovassem o embarque da família Wainer no porto de Gênova, com destino para América do Sul.

Ainda em sua defesa, Wainer teve amigos que se ofereceram para depor, alegando que haviam assistido sua circuncisão (que acontece no 7º dia de vida), o que provaria que ele de fato nascera aqui. Segundo Nelson Rodrigues, que escrevia “A vida como ela é...”. - uma das colunas do Última Hora -, “pode-se pendurar um sujeito numa forca, ou crivá-lo de balas, ou beber-lhe o sangue como groselha. Mas ninguém tem o direito de fazer o que a Comissão Parlamentar de Inquérito fez com Samuel Wainer”.

Realmente os passos dos inimigos caminhavam pouco macios sobre ele que, mesmo antes da morte de Getúlio, lutava praticamente sozinho. Porém, como mostra a história, em momento algum pensou em se entregar ao “Corvo” (nome com o qual apelidou Carlos Lacerda) e aos outros tantos que queriam vê-lo derrotado.

Mesmo com todos os esforços para provar sua inocência, em outubro de 1955, Wainer estava sendo condenado pelo crime de falsidade ideológica, já que a dívida com o Banco do Brasil havia sido quitada e nada quanto a esse assunto ficou provado. Na cela do Regimento Caetano Farias, para onde fora mandado, se encontravam presos bastante interessantes: “dois advogados condenados por chantagem, um químico industrial que tinha matado a esposa adúltera, um médico mineiro de origem árabe que assassinou a mulher por suspeitar que está teria tentado prostituir a filha e um tenente do Exército preso por estelionato”, todos aparentemente simpáticos a Lacerda, como narra na autobiografia.

Apesar de estar extremamente mal acompanhado, os motivos que o levaram a solicitar uma transferência foram os rumores de um golpe articulado pelos militares “lacerdistas”, contra o então mais novo presidente da República, Juscelino Kubitschek. Graças à ajuda do médico Noel Nutels, que participou do grupo da revista Diretrizes, conseguiram transferi-lo para o Hospital da Polícia Militar.

Há exatos 50 anos, Samuel Wainer e sua esposa Danuza Leão acompanhavam por telefone as informações sobre o julgamento, no Supremo Tribunal Federal, do recurso que pedia sua absolvição. Finalmente, neste 23 de novembro de 1955, Wainer fora absolvido por unanimidade, pois o STF não se interessava em saber onde o dono de um dos jornais mais importantes do Brasil havia nascido.

Entretanto, não seria numa CPI e muito menos em páginas de jornais que desejavam ver o nome de Samuel Wainer na lama, que a informação quanto ao seu verdadeiro local de nascimento encontraria a seriedade que esse assunto passou a merecer. Na Escola de Comunicação da UFRJ (ECO/UFRJ), em 1996, uma dissertação de mestrado com o título de “Samuel. Duas vozes de Wainer” estava sendo defendida pela jornalista Joëlle Rouchou. Sob orientação da professora Heloísa Buarque de Hollanda, durante todo o trabalho, Joëlle se dedicou a compreender a identidade judaica e jornalística de Wainer. Para isso desenvolveu uma extensa pesquisa em busca de informações pouco discutidas e algumas até inéditas, tanto no conteúdo como na abordagem. Além das 1.300 páginas resultantes das transcrições das 53 fitas deixadas por Samuel Wainer - as mesmas que também serviram de material para Augusto Nunes em “Minha Razão de Viver”, - a jornalista que trabalhou no Jornal do Brasil (1978-1985) e na revista Veja (1985-1987), entrevistou parentes, amigos e ex-colaboradores. A tese foi transformada em livro em 2004, pela UniverCidade Editora, e é a primeira publicação a divulgar que Wainer realmente era bessarabiano. Nesta entrevista Rouchou fala um pouco sobre o livro e das razões que a levaram a escrever sobre o assunto.


Geórgia Nepomuceno: “Samuel. Duas vozes de Wainer” é sua dissertação de mestrado. É verdade que foi a partir da revista Diretrizes que seu interesse pelo Samuel Wainer surgiu?


Joëlle Rouchou: É. Eu estava procurando um assunto para fazer minha dissertação de mestrado e eu já trabalhava na Casa de Rui Barbosa. Hoje sou pesquisadora, mas na época eu era assessora de imprensa. A Heloísa Buarque de Hollanda já era minha orientadora e eu estava trabalhando com uma revista feminina, então, tudo que eu escrevia a Heloísa dizia: “Não, Joëlle. Você está falando mal das mulheres”. Aí eu disse: “Não, não está dando”. Ela falou assim: “Vai trabalhar com mãe judia”. Trabalhar com mãe judia? Comecei a procurar coisas do meu ex-sogro, o Octávio Malta, o amigo do Samuel. Então, eu tinha acesso à Diretrizes e fiquei encantada com a revista de fato. Além disso, o personagem Samuel Wainer sempre aparecia nas conversas com meu sogro e com minha sogra. Ele era um personagem, mas ele era amigo daquela família. Então todo passado deles sempre tinha Samuel, Jorge Amado, enfim, toda essa galera da Diretrizes. E eu comecei a ver Diretrizes e comecei a achar incrível a revista. A revista é impressionantemente bem feita, uma revista que não tem igual, ela é super legal. Pensei: “Como é que será o Samuel?”. Vou ver se eu consigo um arquivo dele. Liguei para a Danuza Leão que não quis falar, mas me deu o telefone da Pinky. Liguei para a Pinky, que eu não conhecia. Ela disse: “Olha, ele não tinha arquivos, mas tem todas as fitas transcritas, que é o material dele”. Aí que eu fui ver e aí que eu saquei que tinha uma outra vida. Li duas coisas que me interessaram: o judaísmo e o jornalismo. Então fui verificar até que ponto um não dava o impulso para o outro vencer. Aquilo do judeu imigrante que vinha para cá e que queria provar que podia se dar bem.

GN: Você é judia, certo?


JR: Sou. Mas eu não pensava em trabalhar com isso. Eu me lembro que eu fui falar com o Muniz Sodré, que era o diretor da Escola (ECO/UFRJ), falei: “Muniz o que é que eu faço? Por que eu sou judia, eu vou trabalhar com judeu?”. Ele falou assim: “Uái! E negro não trabalha com negro? Qual é o problema? Não há o menor problema nisso”. Aí eu fiquei um pouco assim... Quando eu abro as páginas transcritas e vejo que o Wainer abre essa questão que é um ponto para ele, que é o diálogo que ele tem com o filho, eu achei que eu tinha uma chave, que tinha alguma coisa por aí. Então eu fui fichando as mil e tantas laudas.


GN: Mas como é que foi? Você pegou o telefone, ligou para a Danuza, em seguida, ligou para a Pinky e ela te disponibilizou o material numa boa?


JR: Isso. Essas coisas que acontecem que só Deus explica. Porque eu acredito nisso. É o que eu digo para os meus alunos, um furo de reportagem acontece para quem corre atrás. Se você abre canais para que as coisas aconteçam, elas acontecem. Se você ficar em casa esperando Samuel Wainer bater na sua porta, isso não vai acontecer. É isso mesmo. A sorte vem para quem corre atrás.

GN: É isso que a gente vê no seu livro, o Samuel dizendo que “vai dar!”. Aquela idéia de que não importa se eu não vencer a guerra, pelo menos eu vou até lá brigar.


JR: Mas é isso. Você vai atrás e as coisas vão acontecer na vida. Mas foi uma sorte danada, porque a Pinky ficou super envolvida. Não sei o que aconteceu, essa cena é inexplicável, porque ela podia ter sido tão dura, falado para eu ir até a Secretaria Estadual e pegar o material que tem lá. Mas ela foi um barato. Ela fez a capa do livro e recuperou o azul da Última Hora. Ficou linda. Eu adoro. O tempo todo eu dava notícias para ela da dissertação enquanto eu estava escrevendo. E ela sempre interessada.

GN: Você também a entrevistou?

JR: Fui para São Paulo, entrevistei Pinky, entrevistei a tia dela, que foi quem me falou que o Samuel realmente tinha nascido na Bessarábia.


GN: Teve alguma coisa durante a pesquisa que você ficou com dúvida e não deu para encontrar a resposta até o final?


JR: Não. Não teve não. Fui fechando tudo o que eu podia. Tem que ser, senão não passa. Poderia ter alguma coisa aberta que eu até diria na pesquisa: fui atrás disso, aquilo... Você vai fechando na verdade, vai delimitando seu objeto. Aí você vai vendo. Tudo quando começou era polifônico. Todas as rotas do Samuel: era o Samuel repórter, Samuel editor, Samuel jornalista, Samuel dono de jornal, Samuel político. Umas 10 categorias.

GN: Você levou quanto tempo nesse trabalho?


JR: Três anos trabalhando.


GN: E como foi para organizar?

JR: É muito bom. Dá trabalho, mas é isso.

GN: Tem uma coisa da ansiedade, do fazer logo?


JR: Não, eu ia fazendo. E também porque na hora de escrever, eu escrevi em 15 dias. Já estava tudo pronto, tudo estruturado, tudo pesquisado. Em 15, 20 dias no máximo eu escrevi. Todo dia. Fiquei em casa escrevendo. Tirei férias e fiquei escrevendo. Mas escrever não é tão difícil.

GN: A pesquisa foi mais complicada?

JR: Complicado é você pesquisar direitinho. E aí a Helô (Heloísa Buarque de Holanda) quando viu essas categorias ela falou: “Não, não, não. Escolhe dois assuntos e fecha com dois só”. Mas para mim era muito pouco. Mas ela disse que não e que logo eu iria ver. Até porque eu encaixava.

GN: E como é que foi a escolha dessas duas categorias?

JR: Eu fiquei assim: a voz do jornalista, que era a voz pública, que era como ele se apresentava. E a voz do judeu que era a voz privada. Foram as que me interessaram mais.

GN: Você já sabia que ele tinha nascido na Bessarábia?


JR: Ah, sim. Mas depois é que eu fui ver que era uma questão tão importante. A que acaba com ele. Acaba com ele, apesar dele sair vencedor.


GN: Você foi a primeira a dar a notícia de que ele não era brasileiro. O que você acha disso?

JR: Eu fiquei toda feliz, claro, porque fazia parte da minha pesquisa. A irmã dele me conta. Mas isso não muda muita coisa, porque de fato é uma questão de lei, que é uma bobagem o cara ter que ser brasileiro nato. Eu mesma não nasci no Brasil também. Eu não entendo essa lei. Por ele ter nascido na Bessarábia e vindo pra cá não pode ser dono de jornal. Eu nasci em Alexandria, vim pra cá com dois meses, isso significa que eu sou menos brasileira que uma mulher da minha idade que nasceu aqui? Eu não posso ser dona de jornal.

GN: E aquele depoimento da Pinky onde ela fala que gostaria de estar inserida no grupo dos judeus?


JR: É porque na verdade, na religião judaica, para você ser reconhecida enquanto judeu, tem que passar pela linha materna. Entre os judeus se a mãe é judia, o filho também é. Ele é reconhecido, porque a mãe você tem certeza quem é, o pai não. Eu acho isso de uma injustiça atroz. Ela tentou. Mas eu acho que é só um momento da vida dela. Tem uma hora que ela fala que ela se vestia igual àquelas ucranianas. Isso você vê na obra dela. Teve um momento das aquarelas dela que tinha árvore da vida, tinha uma coisa meio cabalística, tinha um símbolo judaico. Mas a Pinky é assim, ela é super aberta.

GN: Ela falou com você só do pai ou falou também um pouco da relação com a mãe?

JR: A gente ficou falando basicamente do Samuel.

GN: Tem uma parte no seu livro em que você fala que a jornalista que entrevistou o Samuel, que ela toca na questão da Danuza, que ela era uma pessoa especial. E ele diz (em MINHA RAZÃO DE VIVER) que é triste quando um casamento acaba porque os filhos também se separam de você. Enfim, isso quer dizer o quê? O grande amor da vida do Samuel foi a Danuza?


JR: A Danuza eu acho que foi. Foi a única mulher com quem ele teve filhos e com quem ele casou de fato. Eu acho que sim.


GN: E aquela história dela ser uma goy ?


JR: Depende de onde você está. Depende de que lugar da comunidade judaica você está. Eu não casei com um judeu, por exemplo, e foi um drama. O meu pai achava que a culpa era dele, que se a minha mãe estivesse viva ela teria dado um jeito e eu não acabaria me perdido nos caminhos não judeus.

GN: E quando você descreve a família Wainer, antes, você já sabia alguma coisa da mãe e do pai dele?

JR: Sabia. Mas descobrir essa identidade judaica do Samuel foi um trabalho mesmo de levantar isso, porque não era uma coisa óbvia. Eu acho que eu digo isso no livro se eu não me engano. Para mim ficou muito claro que tinha alguma coisa. Porque eu justifico. Eu levei um susto quando eu vi. A primeira coisa que ele resolve falar é da identidade judaica dele, através do diálogo com o filho. A primeira coisa que ele faz é isso. E depois corta e ele vai falar da vida dele. “É porque eu sou judeu, eu sou um judeuzinho e não sei o quê”. Mas ele era um cara que não preservava a religião judaica. Ele não liga tanto. Repara que ele casa com uma não-judia e ele é cremado. Não se pode na religião judaica ser cremado. Não se crema o corpo, você volta de onde você veio, da terra. Então, não tinha essa religiosidade. Eu acho que é assim, o judaísmo é uma marca étnica, não é só cultural, não é só religiosa. Ele pertence a essa tribo, mas não necessariamente ia rezar na mesma cartilha. Não ia preservar. Mas quando ele vai para Israel, fica naquele balanço dos judeus e ele se reconhece. Quando ele vai para Nuremberg é o oposto, ele consegue ser o jornalista frio.

GN: Você acha mesmo que em Nuremberg ele consegue ser o jornalista frio?

JR: Eu fiquei muito impressionada pelo relato dele. Porque qualquer pessoa não-judia ia ter alguma reação emocionada. Acho que ele não quis que o judeu aparecesse ali. E se ele estivesse lá ele teria sido morto, porque ele sai da Bessarábia quando começaram os pogroms, no inicio do século XX. Pogroms são aquelas saídas dos judeus da Rússia e eles têm que ir embora. Ele sai por isso, senão ele ainda estaria lá na Bessarábia, se estivesse lá ele ia para o forno direto.

GN: Mas durante o julgamento em Nuremberg tem um jornalista que grita que tudo foi um genocídio e o Wainer ainda se mantém calado, porém indignado.


JR: Indignado. Ele fala do lide, ele pensa no torturador, ele fala como é que vai fazer, mas não tem um discurso emocional.


GN: Você está dizendo que ele podia ter sido um daqueles que se manifestaram no tribunal?

JR: Não, mas ele podia falar. Ele não estava no tribunal e ele podia falar, mas ele não fala. Mesmo depois quando ele está contando isso para o entrevistador, acho que é para o Sérgio (Sérgio de Souza) que ele conta. E ele podia falar: “Poxa, aquilo foi horrível, imagina, eu podia...”. E eu achei estranho. Os relatos dele são todos muito frios, ele matém essa frieza. É a opção dele.

GN: Já em Israel ele se mistura.

JR: Completamente. Aquela que eu gosto muito é a descrição dele daquelas pessoas sem terra, sem nada, sem pátria, os displaced people. Eu acho que ele se via assim.

GN: E foi surpreendente. Foi uma surpresa para ele ver que aquelas pessoas que perderam as famílias estavam lá cantando felizes da vida, porque agora podiam ir para algum lugar.

JR: E elas estavam vivas.

GN: Tem uma parte em que ele fala que vê um rabino velhinho...

JR: É muito legal essa parte. Eu queria mesmo que a Pinky publicasse do jeito que está.

GN: Como é que está?

JR: A transcrição do jeito que é. Porque na verdade ele ia reescrever. O Moacir diz isso, o Moacir Werneck. “Se ele tivesse tido tempo de trabalhar essas memórias e ele tivesse me mostrado, eu teria cortado um monte de coisas”.

GN: E aquela passagem na qual ele conta para os filhos sobre a velha avó Wainer que foi estuprada por 24 inimigos? Quando ele tenta explicar a origem da família Wainer.

JR: Eu adoro isso. Não importa porque é lenda. Era lindo, maravilhoso. E o que eu acho legal é que ele pega a história de Moises como se fosse de um tio dele, de um bisavô dele. Porque é para isso mesmo. Essa história do antigo testamento é isso. É a história do povo judeu, então, é para se apropriar mesmo e ponto. Porque nós estivemos no deserto, nós estivemos lá, nossa alma esteve lá.


GN: E aquela coisa dele estar inserido no grupo dos judeus e depois não estar? Na fala dele a gente percebe que ele se inclui e se exclui o tempo todo.

JR: Isso é o que é interessante nele. Como é o ser humano, na verdade. Uma hora você quer ficar de azul, outro dia você quer rosa... Isso é que é interessante.

GN: E essa amizade dele com o Getúlio Vargas?

JR: Eu não sei se tinha mesmo amizade naquela história. O Samuel tinha o Lacerda como amigão, ela gostava muito dele. A minha análise é que ele, eu digo isso no livro, perdoa o Lacerda, ele compreende o Lacerda, mas ele briga. O Chatô é o cara com quem ele passa o tempo todo brigando e é o cara que, por razões variadas, banca tudo para ele se transformar em Samuel Wainer. Ele consegue a entrevista com Getúlio, ele corre atrás, claro que é o valor dele, mas o veículo é o Chatô. E depois vem o Vargas. Ele tem a briga com o Vargas na época do DIP e depois ficam os melhores amigos

GN: O que você acha disso?

JR: Eu acho que é a vida. É o fluxo da vida. Porque vai depender do que é que você quer, do que é que está acontecendo naquela hora. É um jogo de interesse o tempo todo. Eu acho que o Chatô e o Vargas são jogos de interesse, com o Lacerda eu acho que não. Tem alguma coisa ali.

GN: Ressentimento?

JR: Ou ressentimento, ou amor. Tem um sentimento assim.


GN: O Lacerda freqüentava a casa do Wainer.

JR: Freqüentava. A mãe do Samuel ficava triste, ficava com medo do Lacerda. Ela não entendia que o Lacerda tivesse feito isso. Eles foram próximos numa época em que mesmo os nossos desafetos, a gente gosta deles, porque eles lembram a gente de um tempo em que a gente achava que era mais feliz. Ou quando a gente está na adolescência, quando a gente está na infância e a gente acha que esse é o melhor período da vida. Então, fica uma memória afetiva até daquele amigo da escola com quem a gente brigava, quando a gente revê hoje. Fica uma coisa: “meu amiguinho, a gente viveu aquilo junto”. É uma testemunha de uma época que foi feliz. E agora, o Chatô e o Vargas eram interesses.

GN: E quanto ao relacionamento com o Vargas?

JR: Já imaginou você ser amigo do Presidente da República? Não é fascinante? O Wainer foi o cara que estava ali, que segurou, que bancou a campanha sozinho. Ele fez sozinho a campanha, ninguém acreditava. O Vargas ganha, volta nos braços do povo e volta eleito pelo voto direto. Então imagina? Você ser o cara, ser “O Cara”. Então, você sabe de tudo, você tem os bastidores todos, mas claro que o Samuel foi usado pelo Getúlio. Não tenho nenhuma ingenuidade e, provavelmente, nem ele achava que era pelos olhos azuis dele que o Getúlio... Mas ele se aproveitou também. Um se aproveitou do outro, era um jogo de interesse.

GN: E no caso do Última Hora. A história não é bem aquela de que o Getúlio deu dinheiro para o Wainer fazer o jornal.

JR: Não. Mas ele era amigo do Presidente, imagina? Que nem hoje em dia, a mesma coisa. Você vai: “Eu sou o Samuel Wainer, o Getúlio quer que eu faça um jornal”. O Banco do Brasil libera o dinheiro. Passa com a notinha no banco. “Ah! O dinheiro era do Banco do Brasil!”.

GN: Mas ele saldou essa dívida, não?

JR: Não sei. Mas, enfim, essa é a questão. Essa é a “República das Bananas”, é assim que funciona. Essa história é muita enrolada.

GN: Mas depois vem a história com o Lacerda, vem o Chatô, o Roberto Marinho. Todos dizendo que ele foi favorecido. E ele vai para o fogo sozinho.

JR: Por quê? Porque ele não fazia parte do grupo. Ele diz isso. “Eu sentava à mesa com eles, mas eu não fazia parte do grupo”. Que era um clube muito maior, de mais tempo. Ele conseguiu ser um dono de jornal, mas nunca o aceitaram de fato. E o jornal era muito bom.

GN: E essa coisa do Joel Silveira dizer que o Wainer escreveu a biografia que ele queria e não o que aconteceu de verdade?

JR: Que nem o Rivadávia de Souza, que é outro livro chamado Botando os Pingos nos Is, onde ele diz que não é nada disso, que a entrevista com o Vargas não foi assim, que o Samuel inventou. É uma questão da verdade, da verdade histórica. O que é, o que não é. Eu preferi não entrar nessa questão filosófica, ou de discurso, porque o que interessava era o que ele achava, o que é que ele escreveu. Eu fui pegar o Rivadávia, então digo o outro lado. Regra básica do jornalismo e da pesquisa. Você ouve o que o outro tem para dizer também, coloca lá, mas eu segui aqui, porque era o lado dele que me interessava. Ser a verdade, ser positivista ou não, não era o mais importante. É como ele viu isso. Se todos nós vamos cobrir um acontecimento, na hora de escrever o texto eles serão diferentes e a gente viu a mesma coisa. A gente vai contar de forma diferente, porque passa pela subjetividade. Então, é complicada essa verdade. “Ah! Aconteceu assim”. Aconteceu assim para você. Não sei se ele manipulou. Isso eu não sei.

GN: Na história dele com a família. Se ele tinha um pai ausente, em quem o Samuel se espelhou para ser o oposto? Você conseguiu captar uma figura humana ali?

JR: Não, não. Mas eu sei que ele era uma mãe judia.. Porque foi ele quem cuidou dos filhos, porque a Danuza largou e foi viver com o Antônio Maria. E ele pegou os três filhos e foi viver com os três filhos. O Dines diz isso: “O Samuel era uma mãe judia”.

GN: Parece que desde criança, naquela história do Bar Mitzvá, o Wainer começou a aprender a lidar com os fracassos, com essas coisas que uma hora deixam de dar certo, como o jornal que ele fundou e que acabou trabalhando como funcionário depois.

JR: Na Folha de São Paulo. Isso para mim é um exemplo. Ele parecia ser um cara muito charmoso, muito cheio de charme e poderoso. Mas eu não sei dizer, porque eu não conheci, mas eu acho que ele foi um cara acima dessas coisas todas. Ele tinha essa humildade de saber recomeçar, o tempo todo na vida dele isso acontecia. O tempo todo. Eu me lembro da dona Rosa, minha ex-sogra, contar que, às vezes, não tinha salário para o seu Octávio. Não tinha salário para eles todos do jornal. “Hoje não tem, não faz mal, vamos fazer desse jeito. Amanhã a gente faz de outro”.

GN: O que você achou de ter tido esse trabalho publicado?

JR: É bacana você ter editoras universitárias, porque só elas podem publicar esse tipo de coisa. Não estão visando tanto o lucro como as editoras comerciais que precisam vender para se manterem.

Sobre Joëlle Rouchou:

Jornalista e professora da Escola de Jornalismo da UniverCidade desde 1987, Joëlle trabalhou no Jornal do Brasil (1978-1985) e na Veja (1985-1987). Foi assessora de imprensa da Casa de Rui Barbosa (1988-2000), passou a dedicar-se à pesquisa e obteve seu doutorado em Comunicação e Cultura com a tese "Noites de verão com cheiro de jasmim: memórias de judeus do Egito no Rio de Janeiro (1956-1957)", na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Atualmente é pesquisadora do setor de História da Casa de Rui Barbosa.

Bibliografia:

ROUCHOU, Joëlle. “Samuel. Duas Vozes de Wainer”. 2 ed. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora, 2004.
WAINER, Samuel. “Minha Razão de Viver – memórias de um repórter”. 5 ed. Rio de Janeiro: Record, 1987.
RODRIGUES, Nelson. A menina sem estrela. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
Internet: (sites)
Fundação Getúlio VargasObservatório da ImprensaComunique-seJornalista da Web