quinta-feira, março 02, 2006


ENTREVISTA
THEREZA HERMANNY
No dia 16 de novembro de 2004 chovia na cidade do Rio de Janeiro. Alguns dias antes, meu amigo Eduardo Passos, o Dudu, havia me comunicado de que conseguira uma entrevista com dona Thereza Ottero Hermanny, que foi a primeira esposa do Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom Jobim.

Eu estava não sei em que período da faculdade de Jornalismo. Dudu e eu já não faziamos muitas matérias juntos, mas a amizade continuava como continua até hoje. Ele estagiava num dos postos de atendimento da UNESA e eu nem imaginava que em alguns meses começaria a fazer parte do Departamento de Pesquisa da mesma universidade.

A entrevista com dona Thereza, na minha opinião, reforçou bastante nossa amizade. O Edu foi super gentil por ter me deixado acompanhá-lo nessa aventura.Tá certo. Eu insisti bastante. Insisti e insisti e insisti. E valeu muito a pena! Valeu a pena porque deu certo! Fico feliz quando dá ceto.

Chovia como eu já falei e quando chove no Rio tudo quase pára ou pára tudo de vez. Descemos a rua do Bispo e entramos num daqueles ônibus vermelhos da linha 438 rumo ao Jardim Botânico.

No caminho Dudu recebeu um telefonema. Era alguém do RH da Secretaria Especial de Comunicação Social , que dizia que ele havia sido selecionado para possivelmente estagiar na Prefeitura. Uma ótima notícia para somar com aquela que seria uma entrevista e tanto.Fiquei bastante feliz por ele.

Chegamos ao Instituto Antônio Carlos Jobim e logo fomos recebidos por uma simpática secretária que nos apresentou a sala 620 do prédio 674. Lá, em prateleiras, estavam os discos do Tom. Na parede o desenho que o Paulo, filho do casal Jobim, fez para ser uma espécie (ou a própria!) logomarca do lugar criado com o intuito de preservar a memória do compositor.
O espaço me pareceu pequeno, mas as pessoas se entendiam muito bem nele. Três pessoas trabalhavam com computadores, ora liam o que estava escrito nuns papéis antigos. Ao lado deles um cafeteira. Não uma cafeteira qualquer. Ali estava a cafeteira que preparou o terceiro melhor café da minha vida. Bebi duas xícaras com muito gosto e açúcar.

Dona Thereza chegou. Nos sentamos na mesa retangular na qual pousamos nossas mãos e os gravadores. Nossa amiga Adriana Gonzaga que também acompanhou a entrevista se sentou um pouco mais distante.

E nossa conversa começou...

Eduardo Passos - Eu gostaria que a senhora falasse, primeiramente, como era o tratamento dele com os filhos, com o Paulo e com a Elizabeth.
Thereza Hermanny - O Tom era muito espontâneo. Ele era mais problemático com a imprensa. Era muito tímido. Mas em casa, assim, era uma presença. Ele era muito presente, alegre, brincalhão, embora muitas vezes, em grandes períodos, a gente estivesse muito afastado. Mas quando ele estava presente, ele era muito presente. Agora, depois a viagem, (começa a falar sobre a primeira viagem do casal à Nova Iorque), a Beth, por exemplo. Nós tivemos que viajar a Beth tinha cinco anos. Eu não queria ir, mas o Tom não queria voltar porque achou, então, já que ele estava lá, ele deveria conhecer um pouco como é que era o problema lá. O pessoal (músicos americanos) estava fazendo versão para as músicas dele. Cada uma mais, assim, muito convencional, e as músicas eram originais. O Tom estava muito chocado com isso e ele quis ficar mais tempo.
E P - Tem uma história no livro sobre a "Garota de Ipanema" que na hora de fazer a versão em inglês...
T H - Ninguém queria que fosse Ipanema (risos). A palavra "Ipanema" perturbava, eles não sabiam o que era.
E P - Alguém colocou Ipana, que era o nome de uma...
T H - De uma pasta de dente! Eles alegaram que isso podia confundir. Eles (americanos) teriam tendência de aipanima, que também não era o caso. Tinha que ter a gravação "Ipanema". E o Tom ficou discutindo esse assunto até que conseguiu manter Ipanema. Às vezes aipanima (risos). Mas funcionou, depois de bastante discussão.
E P - E para o Paulo? Como era o tempo em que ficava longe de vocês?
T H - Paulinho já era grande. Quer dizer, já tinha 12 anos, então, ele já entendia. Ele estava acostumado com a ausência de algum tempo. Naturalmente, nunca foram tantos meses como foi essa primeira. Mas eles tinham um convívio muito constante com a minha sogra e meu sogro. De modo que minha sogra e meu sogro eram como segundo pai e segunda mãe porque quando Paulinho nasceu eu ainda morava com meu sogro e minha sogra e já tinha a prima dele, a Soninha. Muitas vezes a gente não ficava o tempo todo, a gente ficava uma semana e vinha para o Rio a trabalho, depois voltava. Esse lado principalmente Paulinho já estava bem acostumado. A Beth também porque nas férias todo ano nós todos íamos para o sítio. As crianças ficavam os três meses maravilhosos naquela época.
E P - O sítio na região Serrana? Em Poço Fundo?
T H - É. Aquilo lá foi um refúgio muito bom. Um lugar que não tem nada lá. Nem vida rural propriamente também não tem. Teve muito tempo aviário. Uma coisa muito sem graça. Tom tinha horror àquelas galinhas (risos), coitadas, confinadas. Ele que estava acostumado com pássaros livres nas florestas e tal. Ele gostava de ver.
E P - O sítio serviu muito de inspiração para o Tom?
T H - Muita coisa ele fez lá, muita coisa. O Tom era muito contemplativo, ele via tudo, ele tinha aquele olho 360 graus e o ouvido 1000 graus. Ele tinha uma ligação incrível com tudo.
E P - Com ecologia também?
T H - Ecologia, com a beleza das coisas. Era uma pessoa muito rica nesse sentido.
E P - A senhora falou sobre a granja que era dos tios dele.
T H - Do tio do violão na infância.
E P - Que foi quem o ensinou?
T H - Quem ensinou mesmo foi o outro tio. Eram dois tios. Um tio irmão da mãe que era seresteiro e boêmio. Marcelão (Marcelo de Almeida) era mais boêmio, muitos amigos. E o João Madeira é que estudava aquele violão clássico com banquinho. Quem deu mais instrução de violão foi o João Madeira. Mas eram dois tios que lidavam com música e as tias cantavam.
E P - Então sendo um mais voltado para o lado boêmio da música e o outro mais...
T H - (risos) Mais para o lado clássico, completou a personalidade louca, como vocês sabem, que virou o Tom Jobim. Helena, irmã dele, cantava.
E P - E foi pela Helena que a senhora conheceu o Tom?
T H - Não. Nos éramos do mesmo colégio, eu e Helena, mas isso foi circunstancial porque eu conheci o Tom na praia, jogando vôlei. Aí quando acabou o vôlei a barraca que ele estava era mesma em que eu estava. (sorri) Eu cheguei depois. Quando eu cheguei, eles estavam jogando vôlei e quando acabou eu estava conversando com um amigo dele. Acabou o vôlei, ele (Tom) apareceu começou a implicar comigo e aí começamos a namorar.
E P - Então, é essa passagem que diz no próprio livro da Helena Jobim (Antônio Carlos Jobim, um homem iluminado), que o Tom primeiramente implicava e que depois ele foi mudando de opinião?
T H - Era para implicar mesmo, para eu ficar nervosinha e eu fiquei, naturalmente. Não podia namorar, então, era um estado de terror o tempo todo. (risos) Era aquele namoro de antigamente, muito diferente do que é hoje.
E P - Como o Tom conseguiu essa proeza?
T H - Ele custou muito a conseguir. Foi até engraçado porque eu me casei com dezenove, comecei a namorar com doze, com uma porção de brigas no meio do caminho. Aí meu sogro (Celso Frota Pessoa) foi me pedir em casamento. E meu pai não entendia porque o Tom não tinha um emprego, estava estudando piano.
E P - E quais eram os estudos do Tom nessa época?
T H - Clássico. Na verdade eu não sei como está acontecendo hoje. Eu vejo muita gente que não estuda os clássicos e sai tocando piano. (explica com certa ironia). Mas, naquele tempo, você não escapava de estudar aquelas determinadas peças, que eram mais ou menos as peças que você tinha que fazer o exame no conservatório para ter o diploma: Bach, Chopin e Beethoven.
E P - Além dos europeus, ele tinha um foco grande no Villa-Lobos também...
T H - (interrompe) Villa-Lobos nessa fase ele gostava, mas não era uma coisa ainda fundamental no sentido de que o Villa-Lobos não é muito instrumental.
E P - Como é que surgiram as parcerias com Vinícius de Moraes, Chico Buarque?
T H - (desvia do assunto e conta uma história) O é Tom muito brincalhão, então, ele estava sempre fazendo uma bobagem, uma brincadeira. De vez em quando a brincadeira virava uma coisa séria. Quem estivesse ali e desse um palpitezinho entrava na letra. A do Juquinha (João Batista Stockler, baterista que gravou com o Tom Jobim) foi até engraçado. Juquinha era bateria e tinha começado na casa do Tom. E o Juquinha uma vez estava muito triste porque uma namorada dele tinha ido embora. Ele reclamou: "uma semana que não vejo meu amor". O Tom pegou a deixa e começou: (cantarolando) "Faz uma semana que não vejo meu amor". O Tom fez a letra, depois disse ao Juquinha: "Olha, eu gravei aquela música. Vai lá assinar sua autorização".
E P - A senhora tinha a preocupação de juntar o material dele?
T H - Bom, isso também porque era um horror. Ele tinha preguiça de ficar escrevendo porque não tinha gravador. Cada cantor que ia gravar tinha uma tonalidade própria. Então, ele sentava e escrevia aquilo na base das bolinhas. E o cantor pegava aquilo e ia embora. Daqui a pouco vem outro você tem que fazer outra vez a mesma coisa. Então, imagina quantas vezes "Se todos fossem iguais a você", o Tom escreveu.
E P - Tem algum momento na carreira do Tom que a senhora considera especial?
T H - Olha, eu acho que a época de maior inspiração foi aquele princípio da carreira dele. Que era uma época em que ele tinha poucos compromissos e que estava tudo muito espontâneo, tudo muito fácil, tudo sem responsabilidade maior. O Tom precisava de tempo vazio para deixar vir a música. Eram duas maneiras de compor. Uma era essa que ele considerava a verdadeira composição que vinha do além. E a outra era uma coisa que ele inventou, uma coisa filosófica. "O produto do trabalho é o resultado". Parece enigma. (risos)
E P - Voltando ao assunto do sítio, o que eu percebi é que dá para fazer uma relação da escolha da casa parecida com a do Santos Dumont em Petrópolis.
T H - Aliás, não foi o Tom que quis, mas o nosso cunhado que estava construindo a casa do Poço Fundo. Fez aquela escada do Santos Dumont lá na nossa casa porque o Tom queria um mezanino e aquela escada é uma complicação. (risos)
E P - Nessa parte das casas, de como ele escolhia as casas, a posição do sol...
T H - Acho que a Helena conta que ele rodou vendo uma porção de casas. Ele entrou lá na Codajás (rua na qual o Tom morou no Leblon) foi tão engraçado. Ele entrou com o dono da casa. O dono da casa era engenheiro. A casa era estranha, a divisão dela, porque ele fez a casa pra família dele. Um quarto enorme para três filhas, um quarto pequenininho para o escritório. Ele adorou a maneira do homem construir, os cuidados(risos). O homem deve ter passado uma conversa nele. E ele deve ter feito todas aquelas perguntas. Tom faz cada pergunta. Fico falando no presente. (percebe)
E P - O Tom tinha muita preocupação com o universo dele?
T H - Com o de todo mundo. Ele não se conformava que se estragasse a terra. Se cultivassem esse lugar maravilhoso que nós temos, não precisava ir para lugar nenhum. Mas eles (fala das pesquisas da NASA em na Lua) estragam e gastam fortunas para ir lá e ver água que sobrou. No pólo sul não sei da onde. (risos)